Onde nascem as borboletas... Este é o lugar onde pretendo me firmar. Como crisálida que procura desesperadamente uma folha onde se fixar. Metamorfose. Metamorfosear-me. Construir-me e desconstruir. Ser imago. Alimentar-me das flores que brotam em meus jardins. E, mesmo não havendo mais nada, colher os frutos abandonados no solo ainda úmido e transformar-lhes em parte minha, parte da vida porque é isso que são na verdade: Flores e Frutos e Metamorfose e Vida.
domingo, 7 de agosto de 2011
Da alma
Meu corpo não aguenta mais tanta dor.
domingo, 26 de dezembro de 2010
(Des)Equilibrar
Encerrei meus sonhos pueris para viver tudo que estou vivendo agora. Acertei alguns erros e me preparei para errar muito mais e deliciosamente. Nessa loucura de viver aquilo que conjecturei nunca me permitir viver, reencontrei minhas músicas e letras e redesenhei novas linhas de um sorriso já conhecido. Apaguei palavras eternas em meus dicionários, me deixei ser um filme sem final feliz e com afável desenvolvimento. Não corte a linha que me liga à tua alma, estava dito em um filme do Coppola. Mas eu digo: se a linha tiver que ser cortada, que eu tenha, ao menos por uma noite, minhas costas inteiramente acariciadas por teus beijos. Quero ainda me felicitar pelas palavras esquecidas de outrora. Quero ainda arrumar os armários e ter coragem de jogar muita coisa fora. No mapa perdido dos meus tesouros, me encontrei ávida, lúcida e desistente de minha sede pelo equilíbrio – quero bambear nas certezas ou por algumas doses de vinho. Continuo detestando meu corpo e minha alma infiel. Contudo, se após milhões de anos de evolução, me foi dado esta pele, quero aprender a usar armas brancas e me ferir menos. Percebi que me feria letalmente enquanto julgava estar com a vida sob controle. Não encerrarei a carreira e a fé, se ela existe, aparecerá em algum dos momentos torpes que viverei.
domingo, 9 de agosto de 2009
H(isteria)1 N(eurótica)1.
sábado, 14 de março de 2009
Xeque-mate
É sábado e as pessoas estão festejando. A verdade é que nem ao menos sei porquê estou aqui. Acho que voltei a um estágio inicial de observância. Todas as vozes parecem ruídos e corro o mais rápido que posso para não perder as mais conhecidas. Não que tenha ficado surda, isso não. Os sons estão ininteligíveis e eu tenho pavor de enxergar e não entender. Cadê você que me faz tanta falta? Cadê todo aquele eu? O dia transcorre transtornado e eu aqui pensando em você e movendo a torre, a rainha e o cavalo. Xeque-mate. A torre desabou por causa da minha mão. O líquido do meu copo transfigurou a rainha. Juro que estava indo bem no jogo. Tenho esta maldita mania de jurar e geralmente minto. Mas juro que estava indo bem no jogo. A rainha está diferente agora; está inexplicavelmente cheia da plebe e sua presença é artefato dormente. O cavalo move-se para todos os lados. De lá pra cá, de cá pra lá... Não pára. Arrasta-se. Não paro. Continua. Tento. O caminho não existe, ele se faz ao caminhar.
Quero fazer uma viagem, não importa aonde, pode ser aqui ou na China, não importa onde. Mover. O cavalo pode mover-se de todos os lados, para todos os lados, praticamente uma esquizofrenia delimitada por quadrados brancos e negros. Contudo, amava mesmo a torre. Amava meu sótão só com a janela aberta. Via estrelas cadentes e sonhava morrer quando uma caísse em mim, esta seria a morte mais bonita do mundo. Nunca joguei tranças, meu cabelo é curto demais. Deixava a porta de vitral colorido encostada. Era só invadir ou sorrir ou abraçar.
O líquido do meu copo esvaiu-se, inundando a torre. A rainha transfigurada observa silenciosamente ao longe. O sol se põe delicadamente e avermelhado. A noite altiva e prateada acaricia os cabelos desgrenhados da então aliviada rainha. Aliviada porque a noite iguala os seres. À noite todos são igualmente sós, mesmo que em sonhos.
sábado, 21 de fevereiro de 2009
Chumbo trocado não dói
Quarta-feira, 10 de Abril de 2008
Sempre vai.
Fica porque eu te amo. Fica por eu ser um louco em te amar. Fica porque há resíduos da tua pele embaixo das minhas unhas. Fica porque, por mais que você vá, nós não estaremos longe. Fica porque o sexo é meu, mas o gozo é teu. Fica para nos unirmos de todas as formas possíveis. Fica porque eu te amo.
Fica.
PS: Desculpe ter falado de você em terceira pessoa, mas esta foi a melhor forma que consegui: Ser indiretamente direto como alguém que contempla O Nascimento de Vênus e se hipnotiza.
Domingo, 14 de Abril de 2008
Você me seduziu com aquela tatuagem de Marte no teu braço esquerdo. Só então descobri que você é canhoto. Odeio números ímpares e coisas esquerdas. Gauche, este é você. Sou destra, mas longe dos direitos e longe de ser direita. Você me atropela, me entorta, me vira pelo avesso como um guerreiro patriota dizimando a nação alheia. Te odeio pelo espelho. Te odeio por esta minha miopia. Te odeio pelas vezes que, bêbada, alcanço a tua cama e não te encontro. Depois volto mais bêbada e nos encontramos na porta da tua casa. Você, sóbrio, querendo me matar; eu, bêbada, querendo me jogar. É isso que somos: êxtase e vômito. Esta nossa carnificina sadomasoquista é o que me dá vida. Amo as palavras sujas de teus livros e tudo que elas fazem comigo. Que venham teus zumbidos e barulhos. Amo os poemas de Álvares e tua voz à luz de velas. Você é honestamente desonesto e só eu sei como o relógio reluta em não sucumbir certas noites minhas. Tua frieza é furtiva, minha insanidade cristalina. Não somos óleo e água. Somos Dr. Jekyll e Mr. Hyde. Completos destroçados, metades em negros escombros.
Sim, sempre vou embora. Vou embora para não te dizer não. Vou embora para te ver sempre sóbrio, pois a bêbada sou eu, paulatina e agressivamente. Somos solitários in loco. Teus deuses me renegam e eu me rendo a eles. Sim, sempre vou embora.
Queria fugir-me... Fugir-te.
Comprei um novo quebra-cabeça. Sei bem que você é muito habilidoso com eles, eu não. Há ainda muitos espaços vazios. Fico. Fico para completá-lo. Fico para completar-me.
Fico porque te amo.
PS: Eu odeio domingos com ou sem você. Mas, ainda assim, preciso te ler em todos os pronomes pessoais de plural e singular.
quinta-feira, 29 de janeiro de 2009
O espinho
Quando Rosa olhou para o lado não o encontrou. Doía não tê-lo por perto e ela precisava encontrar imediatamente uma forma de neutralizar toda aquela dor. Já sei, pensou ela, vou à costureira, pois tenho uma festa muito importante no sábado e quero ficar muito elegante. E assim ficou decidido.
A costureira de Rosa morava em Copacabana, mas ela precisava escolher os tecidos em uma loja lá na Avenida Rio Branco. Rosa detestava aglomerações cansativas, mas era por uma boa causa, convencia-se ela. Arrumou-se, colocou um salto agulha e batom vermelho. Sim, queria chamar a atenção dos outros. E Rosa era mulher bonita, sabe. Tinha um corpo bem torneado e dourado. Pois é, vamos nos ater aos aspectos físicos uma vez que falar dos interiores é assunto Freudiano.
Rosa também era uma mulher viajada. Claro que ela sempre se encantou muito mais com as arquiteturas gêmeas dos shopping centers que com o Louvre, por exemplo. Mas isto não vem ao caso porque se existe algo que não foge a regra e a nenhum ser humano é a dor. E era isso que Rosa sentia: dor. Dor esta, abafada pelo barulho e pelos tons fortes de seus sapatos e batom.
Então, perfumou-se, fez um coque no cabelo, entrou no carro e saiu. No caminho o único pensamento que Rosa tinha era sobre o inferno que seria encontrar um lugar longe dos flanelinhas para estacionar o carro. O destino parecia a estar ajudando, encontrou um lugar rapidamente e partiu para sua odisséia da cor e textura perfeitas. E encontrou. A felicidade era tanta que qualquer um poderia confundi-la com uma criança e seu doce. Talvez fugir desse aquela sensação de felicidade instantânea, um certo alívio. A cor do tecido? Indescritível.
Entrou no carro e ligou o rádio. Só a rádio não colaborou com ela, pois tocou todas as músicas cujas letras não queria lembrar e não podia mais dançar.
O que será ser sua sem você
Como será ser nua em noite de luar
Ser aluada, louca
Até você voltar
Pra quê
O que será ser só
Quando outro dia amanhecer
Será recomeçar
Será ser livre sem querer
Quem vai secar meu pranto
Eu gosto tanto de você²
Todavia, rádios são problemas fáceis de ser resolvidos. Cala a boca, ela disse apertando o botão power. Para a sorte de Rosa, Copacabana estava próximo e com isso a alegria pela confecção do vestido seria logo alcançada. Mal sabia Rosa que as pétalas das rosas são as primeiras a cair.
¹Virginia Woolf, personagem de Nicole Kidman no filme “The Hours”
²Abandono (Composição: Chico Buarque e Edu Lobo)