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domingo, 8 de agosto de 2010

Live and let Die.



- What happened? Why didn't they work out?
- What always happens. Life.

(Tom & Summer - 500 Days of Summer)


O amor é uma casa que construímos dentro de nós. Tenho certeza que a nossa é ampla, iluminada... Sinto falta do nosso lar como uma criança que vê o amiguinho inseparável indo pra longe e não pode fazer nada além de dar um longo adeus. Portanto, obrigada por me dar seu ombro e seu coração. Obrigada por me amar entre todas as minhas crises. Obrigada por sorrir, por me sorrir. Obrigada por ter dividido suas tristezas, família e livros comigo. Obrigada por ter me feito mulher e feliz, por ter me levado às estrelas e por permitir te encontrar na volta. Obrigada por compreender minhas questões familiares deveras complicadas. Obrigada por me mostrar que posso e mereço ser amada. Obrigada por alegrar meus domingos e ficar 6 horas comigo ao telefone. Obrigada por ter me despido e me deixar despir pra você.
Adeus é algo que deve ser dito vagarosamente para que, no fim, somente as lembranças boas sejam guardadas. É assim que quero saber que você se lembrará de mim e que me lembrarei de você. Amo-te mais que posso expressar em palavras e espero algum dia que a vida nos oferte com o reencontro e que nossas boas lembranças permitam, novamente, o mútuo reconhecimento.

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Classes gramaticais

A vida é feita de substantivos. Palavras que tentam expressar, denominar sentimentos inexprimíveis, inomináveis. Palavras que tentam calar vozes que jazem mudas, que transpondem desejos. Ainda assim lá estão eles, os substantivos, como guardiões. verdade é que não há definição possível e exata para sentimentos intrínsecos como amor, dor, alegria, solidão... Qualquer um que tente utilizar, torna tudo prolixo e indubitavelmente vago, vazio.
Os adjetivos são uma tentativa desesperada de explicação, entendimento. Os seres preciam se fazer entender, mas também somos análogos, ambíguos. Entretanto, tal necessidade de explicar o inexplicável nos é latente.
Pergunto-me agora sobre os verbos. Em meio a tantos transitivos e intransitivos, só um se sobrepõe, só um se faz necessário, só um é sublime... Aquele que é o mais intransitivo de todos: Amar.


Aproveitando a semana de Páscoa e reorganizando desorganizadamente umas gavetas, encontrei, ou melhor, reencontrei uma parte de mim. Portanto, decidi iniciar uma série (?) de, digamos, ressureições ou seria isto um revival? Não sei. Bem, este está datado de 10 de Julho de 2007. Quase dois anos... Dois anos bem intensos desde então. É, como a gente muda. Que bom não ser a mesma.

sábado, 8 de novembro de 2008

O último

”Vou-lhes contar um segredo: a vida é mortal. Nós mantemos esse segredo em mutismo cada um diante de si mesmo porque convém, senão seria tornar cada instante mortal.”¹

Para Zeca, meu titio carequinha.


Estou na última página de mais um romance que chega a seu fim. Parece estranho que esta vida tenha que terminar após tantos anos de trabalho árduo para construí-la. E o mais estranho ainda é continuar lutando por ela, tal qual gladiador que enfrenta a fera muito mais forte que ele. Acabou. E o que fica para quem ficou? Talvez a certeza de um pacto de carinho feito outrora. Talvez o entardecer de vários domingos. Talvez o cheiro do cabelo. Talvez o tom de uma voz grave. Talvez uma parte da vida.

O último a me chamar de menina calou-se eternamente. Junto com ele, a menina também emudeceu. Agora a mulher guarda as lembranças de seu andar prejudicado por um desses acidentes que acontecem ao caminharmos em alguma estrada desta vida. Suas mãos não tinham muita força para segurar as minhas, mas eram suficientemente calorosas para me abraçar. A mulher continua a procurar-se por tais estradas que deixastes para trás e guarda todos aqueles abraços que foram reservados a ti.

Deixastes muitos órfãos; irmão, principalmente. Contudo, há certas alegrias que não morrem jamais. E é na perda que até os xingamentos são esquecidos. Se o tempo é ou não justo conosco, eu não sei. Acho que nós mesmos comentemos as maiores injustiças contra nós e contra o tempo. Não importa, Julho ainda é teu. Desejar-te-ei felicidades todos os anos, não em aniversários, sempre soube que não era uma aficionada por calendários, mas felicitações por tudo que construístes. Caso contrário não haveria lágrimas neste dia; tanto que hoje o sol nem nos sorriu.

¹Clarice Lispector in “Tempestade de almas”

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Claras incertezas



Não estava bem; não estava definitivamente bem. É com esta afirmação que tentarei tecer uma história ininteligível e indefinível.


Ela queria, não, para dizer a verdade, ela não queria. Parece que o não-querer havia se tornado parte de algo que não saberia explicar, pois era maior que todos os desejos guardados lá dentro. Dentro do ônibus, fones de ouvido, olhava as pessoas lá fora, mas não fazia análise alguma. A música a dominava, embalando o pseudo equilíbrio de seus sentimentos. Não era uma questão de encarar, mas de deduzir. Clara deduzira que havia chegado a um ponto ainda não ideal, mas suficientemente firme para não mais tropeçar nos paralelepípedos desta rua que a acompanhara desde sempre.

Esta rua larga, sem calçadas, não lhe dava nenhuma opção de desvios. Contudo, quando em vez, um estranho de olhos castanhos tão familiares, desviava-lhe o caminho. E ela ia. Ia porque a música alta evitava que Clara ouvisse o próprio grito desesperado do não. Sapatos elegantes calçavam-lhe os pés cansados e cambiantes. O batom vermelho denotava todos os desejos presos, como um grito mudo, em sua garganta. Ia porque gostava de caminhar. Então Clara caminhava doce e desesperadamente como um filho procurando o pai desconhecido.

Olhos cor de mar. Por vezes ela sentia-se parte dele, parte daquela imensidão sem dono, sem mundo, sem fundo ou tão profundo que era impossível alcançar-lhe o fundo. Clara sempre achou que o mar era triste. Deve ter sido por isso que Deus lhe deu olhos da exata cor do mar. O mar era triste? Sim. Era triste, pois para tal imensidão, não houvera gente apta a lhe render descobertas e, aqueles que nunca quiseram tentar, despejavam seus restos mortais. O mar carrega um peso incomensurável, assim dizia Clara.

Sempre gostou de ler. Ninguém nunca entendeu isso porque a leitura nunca lhe foi apresentada. Clara havia descoberto tal doce sabor sozinha. E era justamente sozinha que gostava de ficar enquanto lia. Sentava no chão, atrás da porta, ligava uma luminária e lia. Por vezes adormecia por lá mesmo. No dia seguinte Clara não sentia nenhum tipo de dor física, pois as doces palavras de seus autores favoritos serviam-lhe de analgésico. Acordava, só não sabia se estava pronta para mais um novo dia, mas acordava.

A verdade é que Clara tinha medo, muito medo.

Passou toda a vida tendo muito pouco. Mesmo que junto, estava separada. Vivia épocas diferentes durante a década de 80. Era romântica em seu interior. Contudo, com o passar dos anos, não se permitia mais divagar; tentava fazer de seus sonhos os mais objetivos possíveis. Daí começou a acreditar na velha sabedoria popular de que a cruz nunca é mais pesada que o limite pessoal do suportável. Por isso era exagerada. Sentia a dor e o amor, alegria e tristeza transbordando seus extremos. Transbordando como maré em dias de tempestade.

E nesses transbordamentos latentes, cada dia a mais, cada vez menos aquele reflexo no espelho parecia-lhe familiar. Mas, como enxergar-se quando o grande mal é uma cegueira negra sem precedentes? A verdade é que Clara tinha medo, muito medo e se tateava em meio as suas coisas e causas perdidas.

E foi em uma dessas noites sujas e nojentamente frias que Clara deparou-se na beira da praia. Os comprimidos já sem efeito ficaram jogados no tapete do quarto, um casaco preto e longo e um reflexo conhecido na imensidão verde.

Permita que eu feche os meus olhos,
pois é muito longe e tão tarde!
Pensei que era apenas demora,
e cantando pus-me a esperar-te.

Permita que agora emudeça
que me conforme em ser sozinha.
Há uma doce luz no silêncio,
e a dor é de origem divina.

Permita que eu volte o meu rosto
para um céu maior que este mundo
e aprenda a ser dócil no sonho
como as estrelas no seu rumo.¹

Se é nas origens onde as grandes verdades habitam, Clara conhecia todas agora. Se a solução dos problemas é apaixonar-se por si próprio, Clara esclarecera qualquer sombra de dúvida sobre todos os aspectos, pois, tal qual Narciso, lançou-se rumo a si mesma. A imensidão verde do olhar de Clara nunca pareceu tão serena, pois fechados, não procuravam mais nada.

Se Clara encontrou as respostas? Bem, a única certeza possível é a dúvida.

¹Serenata (Cecília Meireles)

domingo, 12 de outubro de 2008

Deriva claustrofóbica


“É como se a gente não soubesse pra que lado foi a vida, por que tanta solidão. E não é a dor que me entristece, é não ter uma saída, nem medida da paixão...” ¹

Decidi arrumar a casa. Decidi não mais tropeçar em você, nem escorregar no piso liso da tua pele ou ver-te nos quadros pintados a óleo.

Comecei pela sala. Lá encontrei aquele DVD que compramos em um domingo desses e nunca tivemos tempo de assistir. O quarto ainda exalava o cheiro vindo da camisa social que você usou na nossa última vez. Sabia que seria uma faxina difícil; e era indubitavelmente. Senti fome; fome de mim, de comida, de você. Água no fogo. 100°. O café desta vez não era nosso. Usei sua xícara com pouco açúcar.

A caixa que separei para guardar as lembranças já estava cheia. Onde guardar? Não podia deixá-la embaixo da cama; era grande demais. Era grande demais para mim e sua simples existência já era por si só claustrofóbica.

Se era faxina, que fosse de verdade. Tomei banho. Um banho bem diferente dos usuais; um banho rápido e simples. Sem muita espuma, nem importantes fragrâncias. Coloquei uma blusa branca qualquer só porque você não gostava de branco. Não quero nada mais disso tudo que restou; não quero mais nada daquilo que não construímos. Não quero mais suas esperanças e seus eu te amos que dão voltas nas vinte e quatro horas do dia e chegam a lugar algum. Não, nunca, jamais e todos os advérbios de negação possíveis em todas as línguas que você fala. Queria lavar minha alma de você.

Que vá, que vá para longe e não dê mais notícias. Não quero saber das mulheres que entram em seu carro nem de seus passeios. E daí que sob sua ótica o céu de Londres estava lindo? Não. Esta é a única resposta da qual tento me convencer no momento. Tomara que em seus longínquos caminhos você não precise olhar para trás. Todavia, se precisar, espero que o dia esteja nublado, tão foggy quanto as manhãs londrinas. Quero uma cortina de fumaça entre nós.

Guardei tudo em uma caixa: seu discurso, o Big Ben, o Bentinho, a Capitu, El Libro de las Preguntas, as fotos de paisagem, suas mesóclises e ênclises e seu francês fajuto. Pedaço por pedaço, queria te desovar naquela caixa; acho que consegui. Saí apressada e cansada; tudo estava bastante pesado. Pesado meu corpo que carregava a caixa. Pesada a caixa que levava minha alma.

Parei na ponte de uma praia qualquer. Em frente brilhava aquela imensidão poluída de um mar outrora cristalino. E logo atrás havia todas aquelas buzinas, propagandas políticas e a gente que muito via e pouco enxergava, apressava-se neste vai-e-vem tão complexamente simples. Embaixo da ponte, pescadores limpavam o peixe recém pescado que estaria bem cedo no mercado municipal. Será que eles são felizes, indaguei. Não sei. Mas quem é feliz? Acho que ninguém, respondi. A retórica é minha perdição. Perdi o foco. Voltei. Voltei ao nosso enterro de ossos, ao enterro do esqueleto deste amor caduco. Prometi a mim mesma que jogaria tudo fora; tudo bem amarrado ali dentro.

Vivo me fazendo promessas vãs e mais uma vez não consegui. Desfiz o nó e refiz aquele lá na garganta. Peguei nossa foto, a foto mais bonita, a que tiramos em Vancouver no nosso último verão juntos. Admirei teus olhos grandes e negros que, às vezes, não parecia combinar com tua pele clara. Contudo, eram eles os que eu jamais quis ter que esquecer. Quebrei mais uma promessa, a de não chorar mais. E duas pequenas lágrimas rolaram do canto do meu olho direito. Deixei que o vento as enxugasse. Afinal, venta muito na primavera.

Um pescador, um senhor de idade, me observara sob a ponte. Preocupou-se e em um gesto nobre veio perguntar se estava me sentindo bem. Sim. Claro, respondi. Ele olhou-me profundamente e disse: “As feridas da alma são assim mesmo, menina. Demoram.” Sorriu e saiu. Ele tinha razão, mas por hoje é só; estou só.

Havia levado um frasco de uma substância inflamável qualquer, mas desisti de atear fogo na caixa. Lembrei das histórias sobre garrafas que eram jogadas ao mar com uma mensagem de amor dentro. Decidi jogar a caixa com tudo, com o nó cego no mar. Pensei que, talvez, algum poeta grego pudesse encontrá-la e decidir escrever uma ode. Ou que servisse de fôlego para uma declaração de amor mar afora. Ou fizesse um marinheiro lembrar de sua esposa e filhos que o aguardam ansiosamente no lar. Achei que, jogando a caixa, poderia ajudar alguém; poderia ajudar um amor como não pude ajudar o meu. Parece que quando o amor não é mais recíproco, deixa de ser egoísta e torna-se altruísta. Ah, sei lá, deve ser mais uma das minhas teorias malucas que surgem de uma epifânia e se vão junto ao vento.

Joguei. As lágrimas ainda não haviam secado. Levei um tempo admirando nossa vida agora náufraga. Virei às costas com a conclusão de que somos todos tolos. Afoguei a matéria, mas a alma continua viva, à deriva.

¹Música: A medida da paixão. (Lenine e Edu Lobo)