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sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

11 de Janeiro.

Não choro pelas palavras. Choro de saudade (...).
Quando alguém morre ou desaparece, a palavra escrita é o único alento.
¹

As palavras tendem a tornar-se escassas. Desta vez não consegui dizer muita coisa, chorar muita coisa, pensar muita coisa, só gritei: Calma! A vida é longa pra uns poucos e curta para nós. Será que os anos contam mesmo a vida? Será que esse relógio ingrato de apenas 24 horas diáris quantifica nossa existência?
Sei que não mais te verei e sei que a única coisa que me lembro é a maneira como eu olhava pra cima e via teu sorriso ao longe. Todo mundo deixa alguém todo o tempo. Uns guardam as lembranças de uma vida quando era possível acariciar teus cabelos negros. Outrs guardam uns poucos anos e se obrigam a se comportar como adultos para dizer adeus e os piopres são aqueles que nem puderam te sentir como deveriam e se agarram no primeiro semelhante teu que lhes aparece.
Ao final não resta muito a não ser não pensar muito e pedir desculpas por não ser, não estar e por não ter arrancado de ti as palavras que nunca quis pronunciar. Ao final a dor é para quem fica, pois, ao final, ainda restou teu sorriso no travesseiro.

¹ Milton Hatoum in Órfãos do Eldorado.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Bonne Année






Havia a um canto da sala um álbum de fotografias intoleráveis,

alto de muitos metros e velho de infinitos minutos,
em que todos se debruçavam
na alegria de zombar dos mortos de sobrecasaca. (1)


Começaram as enxurradas de clichês. Que coisa maldita! Os blá blá blás me irritam profundamente nesta época, pois parecem atípicos demais. Uma vez ouvi que os clichês, às vezes, nos livram de situações cujo controle nos foge às mãos. E, mais uma vez me pergunto: Quando temos o controle? O falatório continua. Contudo, este final de ano nem ao menos as gavetas consegui arrumar. Maquiar defuntos não é tarefa agradável e já que estão mortos mesmo, preferi deixá-los como realmente são e estão. Claro que todo ponto de vista é a vista de um ponto, mas e daí se sou míope? Provavelmente, só num mundo de cegos as coisas serão o que verdadeiramente são. (2)

Por falar em miopia, me lembrei do Bernardo. Ele era uma figura. Um ser compreensivo e, por vezes, meigo até demais. Mas o que isso importava se eu gostava dele mesmo assim? Experimentei várias coisas com Bernardo, desde álcool até ciúmes comedidos. Nos falávamos todos os dias ou, pelo menos, quatro vezes na semana. Cheguei a nutrir certo amor platônico por ele que foi assassinado por uma distância fatídica. No final nem paixonite, nem amizade. O elo se quebrou e a última coisa que soube dele é que foi morar em Brasília depois de romper relações com os pais e as irmãs. Achei muito estranho. Mas a política socialista de Cuba também era e eu não morri por isso.

O pior para mim é ainda amar você. Sim, você. Não cito nomes porque não quero ficar ouvindo seus ecos; eu não mereço ficar ouvindo sua voz. Algum tempo atrás você disse que nós seríamos para sempre. Eu sempre achei que para sempre e nunca abrangiam tempo demais. Mas que seja infinito enquanto dure. (3) Portanto pedi que fossemos mais devagar. Você citou um de seus autores favoritos dizendo que o amor era para ser vivido até a última gota. Golpe baixo. Acreditei. A esperança é pressuposto do amor e vice-versa. Você é fraco porque deixou eu te amar. Eu te amei. Eu sou mais fraca por ter te amado. Eu ainda te amo. Ele era triste e alto. Jamais falava comigo que não desse a entender que seu maior defeito consistia na sua tendência para destruição. (4) Mas, e daí? Continue passeando por aí usando seu Ray Ban com todo aquele ar de quem não se importa em importar-se. Continue levando esta merda toda, empurrando tudo isso com a barriga. Só não me olhe amorosamente e atenda as minhas ligações e pare de implicar com meu vício por chocolate.

Por falar em gula, ontem ganhei de presente uma caixa de bombons. Estes com recheio de mouse de maracujá. Delicioso, porém esquisito. O que seria a mistura de chocolate com maracujá? Ecstasy e Gadernal? Comentei isso com uma amiga muito querida, a Fabiana. Ela me ligou ontem, após algum tempo sem contato. Matei um pouco das saudades da risada alta dela. Fabiana sempre teve o dom de me alegrar e não haveria de ser diferente agora. Conversamos sobre tudo, como sempre. Foi sensacional senti-la feliz. Está casada e teve um casal de gêmeos univitelinos e isto era algo que Fabiana jurava não fazer nunca: casar, ter filhos e uma casa branca e barulhenta. Pouco importa, na verdade. A única coisa que sempre quis era ver toda aquela tristeza que ela tinha no olhar se dissipar. Consegui sobreviver para admirar tudo isso e torcer para que, um dia, sentisse o mesmo. Eu e ela sempre conversamos sobre tudo; sexo, drogas e rock’n’roll. As divagações eram tamanhas e não poderia ser diferente no que tange meu comentário sobre o chocolate e o recheio. No final chegamos a um denominador comum: chocolate dá o maior tesão. Nos despedimos. Mas as despedidas entre Fabiana e eu nunca eram tristes.

Meu quarto estava uma bagunça e eu estava com uma preguiça antagônica a vida. Odeio Física e as três leis de Newton, mas o que odeio mesmo é a inércia. Puta que pariu! Estava muito calor e todos estavam felizes. Como alguém consegue sobreviver a este inferno? Saí do meu corpo e me empurrei; levantei. Inferno astral. Comecei a organizar as coisas de forma superficial. Não sei se algum dia conseguirei transpor esta barreira, mas o importante é, ao menos, parecer organizado. Todos têm orgulho de mim, preciso me manter neste patamar. A razão da pseudo organização era André. Ele nunca me trazia chocolates, André é o chocolate em si. Ele falava pouco, mas era conciso. Curto e grossamente nem me perguntava, também não me dava tempo de uma auto-indagação, fazia e ponto. Nunca reclamei, até gostava. Gostava muito mais por André ser o tipo de cara com quem eu poderia passar quatro horas conversando ou quatro horas de quatro, sem cobranças. Nos dávamos bem de qualquer forma e em diferentes posicionamentos sem necessariamente concordarmos. Puro behaviorismo. Tanto os estímulos quanto as respostas eram excepcionais. Nos veremos novamente em breve, se não estiver realmente apaixonada por alguém.

Tenho uma amiga que sempre fala de amores comigo. Coitada, amou demais, recebeu de menos. E que ninguém venha com aquele papo de que o amor é desinteressado até mesmo do próprio amor. Ninguém ama sem ser correspondido opcionalmente; até que me provem o contrário. Apesar disto Diana cultivou em si uma doçura admirável. Costumava viajar bastante, independentemente de sair de casa ou não. Quando saía, sempre me trazia um anjo de porcelana; todos graciosíssimos. Não tinha coragem de deixá-los ao vento e na poeira. Portanto, guardava todos eles em uma caixa: Lindos e delicados como ela. Diana é uma das pessoas que me trazem esperança e cheiro de violetas. É uma das poucas pessoas quem tem valido a pena. Digo isto porque nos últimos tempos muito poucas pessoas tem valido a pena e minhas noites de sono. E mais uma vez me vem um pseudo autorzinho qualquer dessas porcarias de auto-ajuda e diz: O importante é quem você é e não o que as pessoas dizem. Ou, o importante é o que está em seu interior. Portanto, nunca deixe ninguém te pôr pra baixo. Ok, ok... Isto pode até ser verdade, mas não sei até que ponto as pessoas podem ser tão avulsas e tão desimportantes assim na vida de alguém. O que fazemos com a máxima de que somos seres sociais e sociáveis? É possível estar aquém quando se convive com pessoas diariamente? Bem, se algum ser conseguiu tal conquista, peço que entre em contato comigo pelo Orkut.

E por falar em contato, faz tempo que não vejo Verônica. Nós costumávamos ser muito próximas e gosto dela, de verdade. Nosso afastamento foi deveras estranho; nem saberia discorrer a respeito. Todavia, seria muito desleal de minha parte se dissesse que não estava um pouco enjoada dela. Odeio gente que vive em função de uma coisa só. Verônica vivia em função do namorado. Lamentável situação porque ela é muito inteligente, não neste aspecto. Não sei se era algum espírito famigerado, mas algo a dominava e ela não fazia nada alem de trepar, é claro, e pensar no bofe nas horas livres. Se o cara lesse o manual de como tocar uma punheta, ela lia também, somente por ele. Por ela mesma muito pouco... Quase nada. As leituras de Chomsky e Schopenhauer ficaram de lado. Nossa amizade chegou a um ponto quase Kama Sutra. Verônica me contava o que fazia e eu ouvia calada e até com certo nojo. Ora, isso não me interessava. Para mim me bastavam as minhas experiências ou, se quisesse ver sexo com terceiros, alugaria um filme pornô. Nada contra voyeurismo, mas isso e amizade não combinam para mim. Nos afastamos por motivos não muito claros, mas sexo e amizade não competem entre si. Ela vive me dizendo que não a procuro mais. Eu cago e estudo ao mesmo tempo e o meu telefone também não toca. Ah, quer saber... Vai se foder, concomitante e denotativamente. Espero que seja bem satisfatório porque eu estou satisfeitíssima.

Satisfação garantida. É isto que Rafael gera em mim. Ele é um daqueles homens lindos com três namoradas e que usa todo o charme para pegar muita gente aleatoriamente. Nos conhecemos a três meses atrás. No começo fiquei bem interessada nele. Bastaram algumas horas para eu ter certeza absoluta de que ele é um babaca completo. Praticamente um boneco inflável, daqueles que vem com acessórios e tudo. Me divirto. Testo meu poder de sedução, viro as costas e vou embora. Rafael sempre volta com uma esperança adolescente e eu me divirto. Contudo, ele nem desconfia. Avisei que ele era um idiota.

Às vezes me pergunto se não sou uma filha da puta ou será que é justamente este o problema: Deveria ser uma. O ar está pesado ultimamente e não estou falando de efeito estufa, aquecimento global. Me perdoem os ativistas do Greenpeace. Juro que desligo as luzes e torneiras quando não estou usando e só uso duas folhas de papel para secar as mãos. A questão é que hoje não estou com saco para falar de coisas nobres. Sou egoísta. Sou mesmo. Quem não é? Acho que as pessoas seriam mais felizes se assumissem isso. Todos dizem que não são e matam por ciúmes. Nunca vi ninguém rejeitar um milhão de Euros porque há crianças passando fome na África. A Jolie por mais legal e solidária que seja tem três mansões, um rancho, alguns carros na garagem, casou com o Brad Pitt (Sorte a dela!) e não com um angolano pobre. Adoro a África e a Jolie, que fique bem claro. Não quero dizer que ela está errada, muito pelo contrário. O grande problema é que as pessoas não assumem suas escolhas. Jolie é rica e decidiu ajudar, portanto dá a cara à tapa. É uma escolha. Somos todos hipócritas, a questão é como isso se intensifica. Se alguém escolheu ser piranha. Ótimo. Decisão própria. Só não banque a mais virgem e casta de uma estirpe. Este povo não entende que a pena é o pior dos sentimentos e que não sentir nada é pior ainda. Meus brônquios se abriram neste momento.

Estou no ônibus. Então, ouço uma dupla inusitada: Caetano Veloso e Roberto Carlos. Indago que porra é essa. Não sei o que é pior, se banda de “rock” Emo com dor de cotovelo ou esta dupla. Cacete, tenho que parar de xingar, mas é difícil. Palavrões são processos catárticos em tempos caóticos. Será que Focault explica? Fones de ouvido. Autismo em ação. Mais uma etapa parece terminada, a não ser pelo beijo que espero desde meus quinze anos. Todavia, consigo conviver sem isso, sem ele... Consigo mesmo. Não que sinta ódio. Todos temos um passado. Não me arrependo de nada que fiz. Experimentei quase tudo, inclusive a paixão e seu desespero. E agora só quereria ter o que eu tivesse sido e não fui. (5) Hoje de manhã, antes de sair, reli o e-mail da Verônica, tentei ligar para o Bernardo e escrevi o nome completo dele no livro que estou lendo (“Histórias de Amor”, Rubem Fonseca). Tudo no mundo começou com um sim.(6) Eu digo sim a cada segundo, a cada toque e mantenho todos os telefones na agenda do meu celular. Quem sabe algum dia. Quem sabe algum dia construa coisas novas com as velhas pessoas. Por agora preciso me reconstruir. A chuva cai pela janela e a música alta me deixa cada vez mais surda.

Um verme principiou a roer as sobrecasacas indiferentes
e roeu as páginas, as dedicatórias e mesmo a poeira dos retratos.
Só não roeu o imortal soluço de vida que rebentava
que rebentava daquelas páginas. (7)

Luz. Depois da freada brusca do ônibus, a cidade ficou mais bonita e iluminada. As lágrimas secaram. Estou leve. Posso voar. Sentirei falta, mas quem sabe um dia?! Sem cronologismos... Qualquer dia basta.



1, 7- Os Mortos de Sobrecasaca. Carlos Drummond de Andrade In Sentimento do Mundo
2- José Saramago In Ensaio Sobre a Cegueira.
3-
Vinicius de Moraes In Soneto de Fidelidade.
4- História Interrompida. Clarice Lispector In A Bela e a Fera.
5, 6- Clarice Lispector In A Hora da estrela.

sábado, 8 de novembro de 2008

O último

”Vou-lhes contar um segredo: a vida é mortal. Nós mantemos esse segredo em mutismo cada um diante de si mesmo porque convém, senão seria tornar cada instante mortal.”¹

Para Zeca, meu titio carequinha.


Estou na última página de mais um romance que chega a seu fim. Parece estranho que esta vida tenha que terminar após tantos anos de trabalho árduo para construí-la. E o mais estranho ainda é continuar lutando por ela, tal qual gladiador que enfrenta a fera muito mais forte que ele. Acabou. E o que fica para quem ficou? Talvez a certeza de um pacto de carinho feito outrora. Talvez o entardecer de vários domingos. Talvez o cheiro do cabelo. Talvez o tom de uma voz grave. Talvez uma parte da vida.

O último a me chamar de menina calou-se eternamente. Junto com ele, a menina também emudeceu. Agora a mulher guarda as lembranças de seu andar prejudicado por um desses acidentes que acontecem ao caminharmos em alguma estrada desta vida. Suas mãos não tinham muita força para segurar as minhas, mas eram suficientemente calorosas para me abraçar. A mulher continua a procurar-se por tais estradas que deixastes para trás e guarda todos aqueles abraços que foram reservados a ti.

Deixastes muitos órfãos; irmão, principalmente. Contudo, há certas alegrias que não morrem jamais. E é na perda que até os xingamentos são esquecidos. Se o tempo é ou não justo conosco, eu não sei. Acho que nós mesmos comentemos as maiores injustiças contra nós e contra o tempo. Não importa, Julho ainda é teu. Desejar-te-ei felicidades todos os anos, não em aniversários, sempre soube que não era uma aficionada por calendários, mas felicitações por tudo que construístes. Caso contrário não haveria lágrimas neste dia; tanto que hoje o sol nem nos sorriu.

¹Clarice Lispector in “Tempestade de almas”

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Claras incertezas



Não estava bem; não estava definitivamente bem. É com esta afirmação que tentarei tecer uma história ininteligível e indefinível.


Ela queria, não, para dizer a verdade, ela não queria. Parece que o não-querer havia se tornado parte de algo que não saberia explicar, pois era maior que todos os desejos guardados lá dentro. Dentro do ônibus, fones de ouvido, olhava as pessoas lá fora, mas não fazia análise alguma. A música a dominava, embalando o pseudo equilíbrio de seus sentimentos. Não era uma questão de encarar, mas de deduzir. Clara deduzira que havia chegado a um ponto ainda não ideal, mas suficientemente firme para não mais tropeçar nos paralelepípedos desta rua que a acompanhara desde sempre.

Esta rua larga, sem calçadas, não lhe dava nenhuma opção de desvios. Contudo, quando em vez, um estranho de olhos castanhos tão familiares, desviava-lhe o caminho. E ela ia. Ia porque a música alta evitava que Clara ouvisse o próprio grito desesperado do não. Sapatos elegantes calçavam-lhe os pés cansados e cambiantes. O batom vermelho denotava todos os desejos presos, como um grito mudo, em sua garganta. Ia porque gostava de caminhar. Então Clara caminhava doce e desesperadamente como um filho procurando o pai desconhecido.

Olhos cor de mar. Por vezes ela sentia-se parte dele, parte daquela imensidão sem dono, sem mundo, sem fundo ou tão profundo que era impossível alcançar-lhe o fundo. Clara sempre achou que o mar era triste. Deve ter sido por isso que Deus lhe deu olhos da exata cor do mar. O mar era triste? Sim. Era triste, pois para tal imensidão, não houvera gente apta a lhe render descobertas e, aqueles que nunca quiseram tentar, despejavam seus restos mortais. O mar carrega um peso incomensurável, assim dizia Clara.

Sempre gostou de ler. Ninguém nunca entendeu isso porque a leitura nunca lhe foi apresentada. Clara havia descoberto tal doce sabor sozinha. E era justamente sozinha que gostava de ficar enquanto lia. Sentava no chão, atrás da porta, ligava uma luminária e lia. Por vezes adormecia por lá mesmo. No dia seguinte Clara não sentia nenhum tipo de dor física, pois as doces palavras de seus autores favoritos serviam-lhe de analgésico. Acordava, só não sabia se estava pronta para mais um novo dia, mas acordava.

A verdade é que Clara tinha medo, muito medo.

Passou toda a vida tendo muito pouco. Mesmo que junto, estava separada. Vivia épocas diferentes durante a década de 80. Era romântica em seu interior. Contudo, com o passar dos anos, não se permitia mais divagar; tentava fazer de seus sonhos os mais objetivos possíveis. Daí começou a acreditar na velha sabedoria popular de que a cruz nunca é mais pesada que o limite pessoal do suportável. Por isso era exagerada. Sentia a dor e o amor, alegria e tristeza transbordando seus extremos. Transbordando como maré em dias de tempestade.

E nesses transbordamentos latentes, cada dia a mais, cada vez menos aquele reflexo no espelho parecia-lhe familiar. Mas, como enxergar-se quando o grande mal é uma cegueira negra sem precedentes? A verdade é que Clara tinha medo, muito medo e se tateava em meio as suas coisas e causas perdidas.

E foi em uma dessas noites sujas e nojentamente frias que Clara deparou-se na beira da praia. Os comprimidos já sem efeito ficaram jogados no tapete do quarto, um casaco preto e longo e um reflexo conhecido na imensidão verde.

Permita que eu feche os meus olhos,
pois é muito longe e tão tarde!
Pensei que era apenas demora,
e cantando pus-me a esperar-te.

Permita que agora emudeça
que me conforme em ser sozinha.
Há uma doce luz no silêncio,
e a dor é de origem divina.

Permita que eu volte o meu rosto
para um céu maior que este mundo
e aprenda a ser dócil no sonho
como as estrelas no seu rumo.¹

Se é nas origens onde as grandes verdades habitam, Clara conhecia todas agora. Se a solução dos problemas é apaixonar-se por si próprio, Clara esclarecera qualquer sombra de dúvida sobre todos os aspectos, pois, tal qual Narciso, lançou-se rumo a si mesma. A imensidão verde do olhar de Clara nunca pareceu tão serena, pois fechados, não procuravam mais nada.

Se Clara encontrou as respostas? Bem, a única certeza possível é a dúvida.

¹Serenata (Cecília Meireles)

domingo, 2 de novembro de 2008

Ao amor de uma noite qualquer...



Do amoroso esquecimento

Eu agora - que desfecho!
Já nem penso mais em ti…
Mas será que nunca deixo
De lembrar que te esqueci?¹



Haveria tanta coisa que eu queria te dizer: tantas declarações idealizadas por este meu amor sem nexo, sem sexo; tantas carícias de um amor renascido no tempo me fogem às mãos em total desordem cronológica. Esta não-lógica do que você é desafia o meu antes íntegro, inteiro intelecto. Esta não-ordem que me causa tua lembrança me faz feliz em meio ao caos de tua ausência. Remoer passados parece fazer parte de mim. Não consegui preparar teu velório, nem divulgá-lo. Então, mais uma vez, a certidão de nascimento desta loucura torna-se válida sem prazo de término.

Tal qual sommelier, bebo-te em goles lentos e degusto teus sabores em cada líquido que venha saciar minha sede. Busco-te em minhas letras tortas e em meus livros suicidas como remédio incontestável, infindável, atemporal. Acho que você tornou-se minha esperança. Agora eu sinto, pois, outrora, eu era dormente. Você é quem me invade as entranhas e me preenche, me seduz sem nem ao menos estar por perto. Daí eu te procuro, te escavo e te encontro aqui dentro, te ressuscito. Como uma relíquia, acalento este amor cuidadosamente em meus braços e rapidamente nos tornamos um.

Não sei mais quem sou; não sei mais quem sou se não me arrepiar, se não mais te encontrar. Necessito do nosso encontro, pois, assim como a lua parece descer e transbordar-se pelo mar, quero me afogar docemente em você. E se eu te dissesse neste momento que eu te amo, o que colheria de seus olhos? Brilho? Desesperança? Não sei. Não sei. O não saber dói. O não saber escraviza. O não saber mata a alma.

Releio-te em meus cadernos e passo a ter certeza que tenho te amado desde aquela data que nem sequer me recordo mais. Um dia que fugiu ao tempo não por não ser pouco importante, mas por ser tão especial e lindo que os calendários tornaram-se insuficientes para marcá-lo. O amor não é um trem que possui hora e local exatos para chegar e partir. O amor é um trem arrebatador que nos puxa para o seu interior e não nos deixa saber quando e onde parar. Agora sou passageira de um trem batizado com seu nome e sobrenomes. Acolhe-me; não me deixe mais sair. Peço-te: dá-me tua passagem só de ida ou, se preferir, volta comigo.

¹Mário Quintana In "Espelho Mágico"


domingo, 7 de setembro de 2008

O triste

Guardou esta manhã
para chorar longamente,
o que não fazia há muito.

Não porque setembro,
não por um fato específico,
um isto que fosse. Ou,

de tão antigo, seria um motivo que
não recordava e agora o hálito de seu abraço
frio e sem rosto?

Guardou, para tal manhã,

olhos e boca. Mas o rápido,
repentino sumo de uma luz

pelas frestas veio dar nos livros,

o telefone, crianças lá fora, jornais
e talvez, e ainda.

Manhã tão breve.

Quem sabe, depois, outubro.
Hoje não houve tempo.


Eucanaã Ferraz - Rua do Mundo

domingo, 3 de agosto de 2008

Amar e malamar. Amar e desamar.


Existe algo além deste céu gris, além deste pseudo-amor, cujas migalhas foram somente o quê você pôde deixar cair para eu me alimentar. Além de tudo isto estou eu, está minha alma. Meu coração, mesmo que partido, ainda bate forte. Aprendi que qualquer caco, mesmo que sejam pequenos os pedaços, têm fibra e corre uma vibração elétrica que tenta agitar-me. Meus olhos ainda guardam teu reflexo. Contudo, não és mais o que vejo ao acordar ou aquilo em que sonho ao dormir. Escapo da tua imagem seja ela viva ou em pensamento. Quando ver dói, viro meus olhos para observar outros movimentos e paisagens. Nestes eu não te encontro; não te encontro em meus horizontes. Não te dedico mais as linhas de meu caderno nem meus perfumes. Não cultivo mais os porquês e olvidei todos os questionamentos que outrora quis te fazer; não quero que ocupe nem mais um milímetro das minhas dúvidas e pensamentos. Após você, há a minha vida e foi este o presente que você recusou, mas que eu cultivo com exímio carinho.

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Ela, as janelas e Ele

“E ninguém é eu, e ninguém é você. Esta é a solidão. ”¹

Nem sabia por quê escrevia. Havia escrito tanta coisa e nem se importava com elas, pois não mais havia um alguém para dedicá-las. Sentia que tudo era em vão. As flores não floresciam com as mesmas cores brilhantes de antes. As folhas avermelhadas e grandalhonas não mais serviam como marca-página do livro favorito. Ler; não lia mais. Não mais pegava sol, nem sentia a brisa.

Sentada ali, magrinha como uma menina, passava dias inteiros. Ninguém entendia. Aliás, ninguém nunca entendeu. Encontrou naquilo sua fuga: na neutralidade. Escrever era seu purgatório uma vez que o céu nunca conhecera e não queria voltar ao inferno.

Escrevia.

As grandes janelas sempre ficavam abertas, pois assim podia assistir o mundo. Aquele mundo todo de gente apressada pra lá e pra cá. Observava uma obra de arte e seus autores em movimento. Os olhos grandes e castanhos pareciam estar constantemente assustados. Ouvia um barulho e tremia, gelava. Era então que a caneta parecia ganhar vida e compor sinfonias inteiras naquele caderno sofrido. Passavam-se horas. Vivia. Respirava. Aqueles minutos eram como oxigênio para alguém ofegante.

Ofegava, escrevia e com os olhos encharcados observava a moldura viva bem em frente. Escrevia. Não chegou. Não chegava nunca. Não voltava nunca. O amor não ia embora nunca. Nenhum daqueles barulhos era o barulho dele.

A estação com raios de ouro ultrajantes chegava para depois as grandes folhas espalharem-se nas ruas deixando os frutos à mostra. Os ventos cortantes cediam lugar à sedução dos perfumes florais com seus coloridos. Ela observava, chorava. Nenhum daqueles barulhos era o dele.

Silêncio.

Observava. Dispersa a vida passava como aquelas pessoas na rua, contrapondo-se ao ideal, ao real, ao visceral e ela, sentada, observava e escrevia. Contudo, com o passar das horas e dos passos, cada palavra naquele caderno tornara-se mais e mais incoerente. Mal sabia que a vida é feita de passos construídos pelos segundos e não andar era suicídio.

Observava e escrevia e nada mudava e o amor não voltava. Assim, cada dia era uma pequena morte e ficava cada minuto mais longe de si mesma e daqueles barulhos que nunca eram os dele.

¹Clarice Lispector In: "A descoberta do mundo"

domingo, 22 de junho de 2008

Quando o inverno chegar

Para Marina, minha prima.
“Mrs. Dalloway always giving parties to cover the silence.”¹

São esses silêncios que nos acordam desesperadamente em um domingo desses e nos fazem relembrar, reescrever. Sempre gostei dos silêncios como forma de auto-análise e como remédio temporal. Contudo, o silêncio que guardo hoje é pela tua não-presença. Nestes silêncios consigo ouvir tua risada alta e ver as mesmas cores de quando nos escondíamos no armário tempos atrás. E das coisas que deixei lá dentro uma delas é você, guardada em uma caixa de porcelana inquebravel. Descobri nesta trajetória que os diamantes não são as únicas relíquias duradouras desta vida. As lembranças também são eternas na fugacidade da existência e mesmo que eu dê muitas festas nestes trezentos e sessenta cinco dias que contemplam um ano, você será sempre convidada nem que seja para dançar aquela valsa lenta e muda que posso te dedicar. As rosas amarelas guardam teu cheiro e aos domingos elas perfumam mais. Tenho medo destes dias que iniciam uma nova semana, tenho medo do que eles possam fazer comigo. Todavia, era quando mais brincávamos e nos escondíamos. Hoje isso tudo mudou; nossas vidas mudaram e para alguém como eu que não possui diamantes, só me restam estas lembranças da chegada do inverno. Portanto, aqui estou eu te dedicando o mais singelo da minha alma: minhas saudades.

¹Richard, personagem de Ed Harris no filme “The Hours”.

quinta-feira, 1 de maio de 2008

Sessão Nostalgia

Jukebox:

Encontros e Desencontros (Maria Rita)

Photograph (Jamie Cullum)

Prefácio:

Dedico à todos aqueles que estão ou passaram pela minha vida. Todos vocês fazem parte dela. Todos vocês são as saudades, presentes ou ausentes, que gosto de ter.

Saudades. Chorei. Não um choro triste, angustiante, daqueles que vai trespassando a alma. Mas chorei. Era um choro saudável. Choro de quem não tinha sono às quatro horas da manhã. Choro cinematográfico. Partes de uma minissérie eram as lágrimas. Flashes de luz que faziam cada momento unicamente doce, eufórico, íntimo.

Trios, filmes, dúvidas, telefones, lágrimas, risadas. Risadas... Ah, como são boas as risadas! Gosto daquelas mais escandalosas. Contudo elas sempre me levam às lágrimas. Estas eu prefiro as silenciosas. Aquelas que se deixam escorrer em uma dessas madrugadas que o vento leva. Conquistas, essas são as melhores partes. Se bem que eu ainda olho para trás e me acho muito velha para tão poucas conquistas. Mas isso se torna uma outra história. Acho que preciso traçar melhor essa minha linha do tempo.

Saber como as pessoas te vêem... Nossa isso dá medo! E é nessas horas que aquela velha teoria de ser um mal necessário cai por terra. Mas é, indubitavelmente, um mal necessário. Apelidos. Existe forma melhor de saber o que uma pessoa acha de você do que os apelidos que a mesma te atribui? Nem sei. Não sei se sim ou se não. Acho que na verdade nunca se sabe. Mas é inegável a participação deles na nossa vida.

Fotografias. Gostaria de ter mais delas. Agora nem adianta mais contá-las. Os momentos passaram e mesmo assim elas não captariam o essencial, não captariam nossa juventude e eminentes desejos de liberdade. “Liberté, Égalité et Fraternité”. Só que eram ideais bem menos filosóficos e coletivos. Bem, continuo ainda sem saber até que ponto cada um de nós pode ser socialista; se é que se pode ser ainda.

Cheiros... Daquela comida gostosa na casa de um ou daquele restaurante aos sábados ou daquela bagunça gastro-caótica na casa de outro. Perfumes. Presentes. Flores. Doces. Amores. Depois da aula de Educação Física o que não faltava eram cheiros e desespero, obviamente. Mas também tinha torcida e muita alegria a cada gol. Cantarolávamos músicas que exalavam nossa euforia, essência e alegria.

Senti saudades.

Saudades das PowerPuff Girls, Capitão América, Batman, dos clipes da MTV, das pesquisas na biblioteca municipal, Betty Boop, de fazer prova oral, da Torloni, das músicas dançadas em cima da mesa, dos cinemas e praias aos sábados, de não ter feito pré-vestibular, daquele amor platônico. Saudades das aulas de História, de Geografia, de Espanhol, de Fonética. Saudades dos biscoitos amanteigados, dos amores, dos amigos, dos amores que viraram amigos e dos amigos que viraram amores. Saudades daqueles primeiros dias, do primeiro sutiã, do primeiro emprego, do primeiro olhar.

O tempo para mim nunca foi retalhado, mas uníssono. Bem, pelo menos aqui no coração. O que me faz muito feliz é saber que há muitos personagens de desenho, praias, livros, salas de aulas, primeiros, filmes, músicas, cheiros, flores e amores ainda à espera para serem coloridos pelos pincéis mágicos da vida.

Sinto saudades sim. Não aquela dolorida, mas uma outra: aquela que eu gosto de ter. Os momentos só são especiais porque não podem ser apagados, não há repetição e muito menos retorno... Amo todos, todos eles. Contudo este presente não me permite querer uma volta porque amanhã ele também será passado e a vida grita meu nome incessantemente.