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sábado, 19 de maio de 2012

Lenga-lenga


Os homens têm essa vantagem de ver as coisas de um modo simples o que, infelizmente, não acontece com as mulheres. Ontem decidi comprar uma lingerie (ponto pra mim), passei um tempão escolhendo algo que, em minha opinião, nós dois iríamos gostar. Bem, pra uma pessoa que tem uma baixa autoestima como eu isso é algo realmente difícil. ‘E daí?’, você diz. E daí que a gente vai tentando fazer as coisas de um modo diferente até elas se encaixarem e você realizar que, putz, você deveria ter feito isso há algum tempo. Casar é difícil pra qualquer pessoa – o dia-a-dia acaba virando um remoer de problemas externos, de cansaço físico e mental, de coisas que deveríamos jogar fora. Quando uma mulher casa com um homem, ela sente, mais que nunca, a necessidade de ser, de se sentir mulher. Foi isso que quis fazer ontem após algumas semanas de cansaço e de muitas críticas internas e também para comemorarmos nosso 2 meses juntos. Tirei várias fotos e fiquei algum tempo em dúvida se deveria ou não enviar. Nothing ventured, nothing gained... Enviei. ‘Legal’ não era de fato a resposta que esperava. Fiquei tão desapontada, não puta, mas triste. Triste por não conseguir despertar em você tudo que gostaria de despertar, triste por profanar o lugar sagrado que seu trabalho é pra você, triste por perceber que você preferiria que fosse uma foto de um prato de comida. Fiquei triste também por perceber que consigo despertar alguém coisa em você (apetite, colaboração, raiva), mas nunca consigo despertar seu desejo quando quero. E eu só consigo me sentir frustrada com isso.
É isso. Sinceramente não espero que você compreenda tudo isso ou minha reação a tudo isso. Acho também que estou fazendo uma besteira muito grande enviando esse e-mail, mas é assim mesmo.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Amar é transgredir.

Eram exatamente naquelas tardes cinzentas em que ela o via. Ele era meio desengonçado e além dela, não se sabe quem mais atentava as pupilas para o caminhar dele. O nome dele era Roam. Roam, nunca ouvira um nome tal qual, mas combinava com aquele sorriso sempre desconfiado e um olhar que parecia fugir do olhar. Ela o via às quintas-feiras e não importava o que estivesse fazendo, ela iria sentar naquele banco, no final da tarde, e esperá-lo passar. Por vezes, existia a sensação de reciprocidade de olhares e talvez fosse realmente tamanha que desviavam-se concomitantemente. Em uma dessas quintas, os dois dividiram o banco.


Tantos anos depois e eu só penso em você. Lembra daquela vez em que você pediu que eu te ensinasse a me beijar? Lembra o que eu disse? “Os lábios devem ser beijados devagar, que são como o inicio de uma jornada. Jornadas precisam ser sonhadas e, quando iniciadas, precisam ser tateadas por dedos ávidos e carinhosos, como quem desenha uma rota de fuga. Posteriormente, a entrada em outro território permite uma troca quente e saborosa.” Você me disse, sorrindo matreiro, que não havia entendido absolutamente nada, me agarrou pela cintura, ajeitou meu cabelo e me beijou longamente. Lembra? Eu nunca esqueci.


Hélio caiu na sarjeta depois que Bela foi embora. Eram tantas mentiras que passaram a viver delas – metiam que se amavam, que se desejavam, que eram felizes. Mentiam todo o tempo. Bela mentia ao dizer que tinha tirado de alguma planta a flor que trouxera no cabelo. Hélio mentia sobre um problema de ereção. Um ria das piadas incompreensíveis do outro e tinham longas oito horas de sono diárias. Hélio casara-se com Bela porque era, de fato, bela. Bela casou-se com Hélio por qualquer motivo que não resiste ao mal hálito matinal. Traíam-se para suportarem-se. C'est la vie. Mas sempre haverá alguém pra desistir ou compreender primeiro.


Dançavam exibindo corpos torneados e suados. No dia seguinte, um sábado, acordaram num motel barato, nus e ainda com a sensação de cansaço e falta de ar. Nenhum dos dois lembrava-se o que havia acontecido, mas sabiam que havia sido bom. Mentiram seus nomes e enquanto ela tomava banho, ele pegou o celular dela para gravar o número. Domingo, 10:00, ligação: Oi, sou eu, de ontem. Quero te ver. Me diz seu nome de verdade? Meu nome é Júlia. Também quero te ver de novo. Domingo, 15:00, reunião de família: Este é meu filho que não conhecia. Estou muito feliz de, finalmente, tê-lo aqui. Domingo, 15:02, terror.


Eu te amei até com meu medo. Mentiria se dissesse que não gostaria de mergulhar em você. Não posso. Tenho medo dos teus segredos, de você ir embora, tenho medo de me ferir, de me afogar e não há morte pior que a concebida na praia. Preciso que você me ame, que me grite. A fria aqui sou eu e você não tem o direito de me imitar. Hoje quando suas mãos deslizavam deliberadamente nas curvas do meu corpo voluptuoso, só consegui pensar: uma pena amanhã ter que chegar. Ter que mapear um novo comportamento com o meu tão típico blasé, passar uma maquiagem escura nos olhos e me repetir. Não preciso que haja um amanhã, só quero que o hoje dure eternamente.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Tautologia

Casa comigo que eu sou capaz de te fazer ver tudo que está bem na ponta do teu nariz. Eu pinto tudo de azul e te deixo a vontade para correr nua pela casa. Casamento é substantivo capcioso, é o contrário do que parece ser, mas casa comigo que eu viro teu sapo quantas vezes quiser.

Casa comigo que eu te deixo dormente e transformo todo o teu chão em cama macia. Se quiser, eu não peço pra você gritar, mas encosta teu corpo bem perto do meu e respire profundamente, sempre.

Se você decidir casar comigo, farei de você a mulher menos mãe do mundo. Contudo, sei que você não se importa em não ter filhos. Mas casa comigo que te semearei herdeiros todas as noites só pela profundidade do teu fitar.

Casa comigo que eu troco as amantes de endereço e peço que todas as minhas contas sejam entregues na nossa casa. Minha cor favorita é o vermelho, mas gosto quando você se veste de branco, é como se fizesse parte da sua pele. Então casa comigo porque eu também quero ser parte das tuas negras noites.

Casa comigo porque estou cansado de procurar presentes diferentes sem saber do quê você gosta. Portanto, se você casar comigo, pode falar dos comerciais e das revistas de moda e livros com finais infelizes que eu dou que eu gasto e me desgasto só para me poupar das tuas reprovações.

Que a decisão de se casar comigo não seja baseada na angústia que posso te causar em nossos dias. Só se case comigo para que possa te trazer estrogênio, chocolates, endorfina, músicas, feromônios e flores.

Casa comigo para eu arrancar tudo isso de bom que há dentro de você e me apossar da tua alma, pois quem sempre perambula de madrugada sou eu. Se você aceitar tudo isso, verá a quantidade de frieza que existe aqui dentro de mim.

Casa comigo porque você nunca acreditou nas minhas mentiras, mas, ainda assim, amou todas elas. Quero jogar na tua cara que você sempre soube quem eu sou e que se está aqui é por vontade própria.

Se quiser se casar comigo, não espere nenhuma festa. Casamento não é um evento imperdível. Daí, case-se comigo que eu nunca vou te perdoar por usar aquele fraque ridículo em um dia de calor com toda aquela gente insuportável me olhando admirada.

Casa comigo pra eu te mandar embora, para depois você olhar na minha cara com um sorriso sarcástico e me chamar de idiota. Você não precisa de mim, então casa comigo para eu precisar menos ainda.

Casa comigo para me provar que sou um burro em pedir. Mas casa comigo só para poder te sentir e te ressurgir nas tuas manhãs de cara amarrotada. Arruma tuas malas que eu quero te levar para o meu buraco. Então casa comigo e me faça tão infeliz quanto posso te fazer e quanto tenho sido.

O amor vem pelo mistério, pela paz, pelo rompimento, pela quebra dos paradigmas e pela tolice de professar os maiores clichês como se fossem preces a um deus que vive escondido por aí a espera de um sim. Então, casa comigo porque eu preciso e admito que sem você este abismo é muito mais miserável.