sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Sacroprofano

Amanhecia. Eu virava-me na cama a procura do teu corpo que, na verdade, nunca esteve ali. Para mim, tua ausência era impossível de existir, pois sentia teu perfume povoar as janelas do quarto e teus olhos incendiavam toda aquela seda. Estava quente, ou melhor, era quente e não haveria condicionador de ar algum que pudesse abrandar tal temperatura. Parece que o Criador nos oferece dias quentes para nunca esquecermos como é estar nos braços de quem se ama. Eu te amava; amava-te em cada gota de suor que teimava em escapar dos lenços que usava para me secar. Gotas estas atrevidas e que prefiro não detalhar por onde passavam, pois sei que o ciúme é coisa vã e cega. O calor banhava-me o corpo inescrupulosamente e eu sabia que não havia escapatória. O suor violava o sagrado do teu cheiro e mostrava-me mais enfaticamente a cada segundo que eu precisava da tua chuva. Suor que me deixava feliz era o teu, o meu, o nosso escorrendo despudoradamente. Era essa mistura de cores e sabores que tantas noites nos transformou, em secreto, em nós e somente nós sabíamos disto. Há joias raras, cujos donos fabricam uma que lhe seja similar e a exibem por aí, assim também é o amor: por mais que seja mostrado para a gente, nunca é o real, o supra sumo do sentimento. Existe um pacto secreto entre os amantes e somente entre eles o amor mostra-se tal qual é, tal qual se sente, pois aos outros pode-se ver banalizado por qualquer coisa, mas entre os amantes o amor é o sêmen de duas vidas em constante gravidez de modo a tornarem-se uma. Precisava de uma banho; não sei porquê, mas os banhos sempre me aliviavam de tuas ausências e já que ausência é uma palavra que nunca deve ser usada no singular, tomava vários banhos por dia. Assim como Afrodite surgiu da espuma do mar, eram tuas mãos que surgiam das águas e curvavam-se na minha cintura e escorriam pelos meus quadris e mantinham teu cheiro inviolável sob minha pele. Então eu te batizava, em nosso nome, meu – meu esposo, meu calor, meu suor, meu amor. Eu sabia que não importava quando e onde, o nosso pacto estaria lá, naquele quarto e quando retornava ao nosso pecado original, você, sentado na cama, abria-me os braços e sorria. E em todas as vezes, em todo este tempo, que você me arrancava de mim mesma que sempre tive a sagrada certeza: se o pecado leva à condenação eterna, são tuas as minhas pequenas mortes e a eternidade para voltar a nascer.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Sinônimos




Esses que pensam que existem sinônimos, desconfio que não sabem distinguir as diferentes nuanças de uma cor.


Mario Quintana (Caderno H)

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Vinte e 1.

Passei os três melhores meses da minha vida caminhando nua por esses corredores repletos de flores imaginárias com aromas bem reais que viviam por nos inebriar. Era engraçado como você conseguia ludibriar minha timidez com coisas que não poderiam ser esquecidas, nem escondidas e no fundo e no raso, eu não era nada resistente a sua sedução. É nessas horas em que falo de amor que me pergunto: é possível amar e não ser piegas? Não sei. Sei somente que era impossível eu não te amar feito uma menina, feito uma mulher. E era doce, até eu me tornei doce para você.

Sorriamos, gargalhávamos e trazíamos a vida para cada vez mais próxima de nós. Dois seres intensos não poderiam ter tanta paz, mas cada vez que discutíamos você me puxava pelo braço, cabisbaixa, e me beijava. Nós construíamos nossa paz mesmo através de todas as nossas guerras. Isso não significava que era fácil; não era tão difícil, mas era tão belo ver teus olhos pequenos e amendoados me olhando chorosos, então eu te abraçava. Tais abraços tornavam-se cada vez mais intensos e longos como se quisessem carimbar cada parte do meu corpo no teu. Daí chegava o vento que, por vontade própria, encarregou-se de secar nosso suor para que pudéssemos permanecer naquela inércia amorosa e braçal. Não há maneira de esquecer nossos segundos mesmo que eles, algum dia, permaneçam em algum lugar do passado: é pelo passado que somos quem somos, que estamos onde estamos e que nos amamos como nos amamos.

Houve dias que tive vontade de ser livre novamente, de ir e vir novamente. Estive enganada este tempo, pois você era minha liberdade. Não te ter à noite é que era minha prisão. Eu era um Ícaro muito diferente porque minhas asas eram reais, porque era você quem me fazia voar. E não importa se três, quatro meses ou quarenta anos, o que importa era poder te ver abrir os olhos todos os dias e estar certa de que todas as lágrimas que chorei algum dia se transformaram em um rio cujas águas me levaram até você. Chorava de emoção pelo tempo passar e nos mantermos juntos; chorava como quem joga a oferenda ao mar em agradecimento pela benção.

Amar-te desta forma foi a maior surpresa da minha vida e não era surpresa nenhuma que meus sonhos e minha realidade eram teus. Portanto os passos eram dados e então a vida coloria-se...

domingo, 9 de agosto de 2009

H(isteria)1 N(eurótica)1.

Sempre tive a impressão que os desabafos são pleonásticos e esse texto também o é, a começar pelo título. Este é um texto sem parágrafos, sem divisões, assim como o presente. Isso é um desabafo. Sim, eu disse que isso é um desabafo em alto e bom tom. Que ruflem os tambores, que toquem as cornetas, pois isso é um desabafo. Eu queria conhecer as mais belas palavras do Houaiss. Queria o mesmo deus inspirador de Chico, a depressão de Clarice, o vício do Noll, a voz afinada da Jones... Ah, eu queria tanta coisa. Estou ficando cada vez pior, fato. Enlouqueço e emudeço a cada crepúsculo. Sem porquês, sequer esperanças, só os tons alaranjados que clamam pelo descer da Lua. Desde a escola aprendi que a Lua é o satélite natural da Terra. Na verdade, ela é o satélite que inspira seres pálidos e noturnos. Esta mesma palidez traz os silêncios desprovidos de sol que tão profundos como só a noite sabe se portar. Tenho saudades de sentir solidão e medo de admitir isso. Quero fugir da minha casa porque tenho medo do monstro que vive em meu armário; não quero libertá-lo, tenho medo de ser feliz. Sssh, quero falar muito, muito baixo. Não quero que ninguém escute minha vida, nem tampouco eu quero berrá-la por aí. As sinonímias são sempre imperfeitas e as onomatopéias para o silêncio também. Os nós são feitos com fitas de seda e reforçados por minha fraqueza, tornando-se, assim, difíceis de desatar. Não faça isso, não faça aquilo; diga isso a ela, seja verdadeiro por mais que doa. Sempre quis duas coisas na vida: ser livre e que me escutassem. Paradoxo. As palavras prendem e libertam ao mesmo tempo. Posso falar, me sentir livre e te prender ou posso falar, me prender e te libertar. Não, definitivamente eu não quero uma casa no campo com flores e silêncio da aus~encia de barulho. Quero o silêncio do amor e respeito. Quero flores nas praças e pontos de ônibus dos centros das metrópoles. Estou a anos luz de ser a mulher biônica, eu só quero teu amor cru e nu. Amarro mais um laço em mais uma fita de seda. Não quero magoar ninguém, só exercitar o ser-me... Quero que sejas pra mim também. Acredita quando eu digo que é difícil ser eu? Acredita quando eu digo que é difícil ser eu uma vez que não quero te magoar? Acredita quando eu digo que é difícil ser eu uma vez que não quero te magoar porque você me faz sorrir? Acredita quando eu digo que é difícil ser eu uma vez que não quero te magoar porque você me faz sorrir e eu quero te ver sempre sorrindo? Isso tudo cansa, mas eu me acostumo. Comprei vitamina C e estou tentando fortalecer meu sistema imunológico mental. Até parei de ver telejornais, estou tentando abstrair a permanência do Sarney no Senado e observo de longe como todos parecem açougueiros mascarados por culpa da influenza A. Eita vida besta, meu Deus! Nada melhor que esta frase do Rosa para explicar. Explicar o quê? Darwin explicou algo, Newton mais algum algo. Penso, logo existo? "Penso", ok. "Existo", tenho dúvidas. Resisto até quando doer. Resisto até quando der.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Dialética











É claro que a vida é boa
E a alegria, a única indizível emoção
É claro que te acho linda
Em ti bendigo o amor das coisas simples
É claro que te amo
E tenho tudo para ser feliz
Mas acontece que eu sou triste...

Vinicius de Moraes

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Curriculum Vitae

Os dias os quais eu não te encontro são enlouquecedores. Procuro tuas músicas e vídeos. Ouço-os, vejo-as e enlouqueço mais. Faço tudo isso na tentativa de não pensar em você. Não quero sequer cogitar a possibilidade de você haver se esquecido de mim. Eu preciso do teu gosto na minha língua. Preciso das tuas palavras desconexas. Preciso me lembrar que não sei agir quando estou contigo. Preciso tremer se te escuto, se te olho, se te devoro. Eu gosto mesmo é do teu peso sobre meus ombros, sob meu corpo, sobre meu tapete; isso sim me traz felicidade.

Restou um maço incompleto do teu cigarro aqui na mesa de cabeceira. Sempre odiei os fumantes, achava nojento, mas não você. Tua fumaça tinha cheiro de canela, tinha um cheiro muito pessoal. Gosto do jeito que faz com a boca quando dá tuas baforadas. Teus lábios formam um circulo carnudo, carmim, cádmio. Nunca fui muito boa em exatas, por isso sempre fui extremamente apaixonada pelas humanas. Foi você quem me ensinou toda a Biologia das coisas e me fez enxergar a anatomia das artes.

Eu te recitava os versículos de Cantares de Salomão em umas noites quentes e brancas. Enquanto recitava, você beijava a boca da garrafa de uísque. Keep drinking. Gosto de te observar, pois sei que tomarei parte daquela satisfação muito me breve. Teu olhar era um invasor que rasgava minhas vestimentas a milhares de metros. E o que falar quando dividíamos os papéis, a ciência? Nestas noites brancas e quentes tentávamos desmentir a tão famosa lei da Física: Dois corpos não poderiam ocupar o mesmo lugar no espaço. Mentira. Quem disse isso nunca amou na vida, nunca se jogou em um precipício de sedas caleidoscópicas. O romance é a melhor droga do mundo e eu era viciada na tua seiva.

Enxergava todos os matizes em tua auréola de fumaça e acreditava em todas as desventuras que teu ar alcoólico narrava. Teu som é a reencarnação das composições de Beethoven. Ainda bem que ele era surdo e não ouviria nossos barulhos. Você é um Dom Quixote e eu a Dulcinéia que se jogou na frente de teu cavalo magro e sujo. E esta é nossa História, nossa aventura e desventura. A verdade é que eu preciso de você agora, de qualquer modo, sem qualquer razão que não seja você mesmo. Preciso me sentir desconcertada por teu olhar repreendedor que me fez crescer em gênero, numero e grau. Amo tuas esquisitices como nunca amei ninguém.

Antes de a nossa desventura começar, isso tudo estava cheio de ninguéns que se foram, mas você conseguiu ser alguém. Mentiria se dissesse que sou incompleta sem você. Eu preciso de você aqui porque eu gosto. Eu te quero aqui porque o ar fica muito mais leve quando coberto pelas nuvens da tua nicotina. Eu te amo porque são teus dedos que tocam todas as minhas sinfonias de ouvido. Eu enlouqueço sem nossas noites hibernais, infernais. Ainda tem uísque aqui no bar e cigarros e um isqueiro novo. Eu comprei Volver. Então volta para tempestuarmos juntos. Tua loucura universal me consome e me revive. Eu quero morrer todos os dias só para você me levar de volta ao teu paraíso.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Querer

Talvez eu queira que você entre em minha vida bem devagarzinho. Acho que quero ouvir teus passos ao longe, mas sempre presentes. Acho que quero um querer diferente, um querer só teu. Talvez eu queira mesmo é que você me faça rir, sorrir. Que as nossas horas passem depressa nos finais de semana para me sentir feliz na segunda-feira. Quero que a saudade te construa com linhas precisas e imperfeitas. Eu quero é não esperar, nem me desesperar. Quero aprender tua simplicidade. É, eu quero mesmo que você entre devagar na minha vida...

terça-feira, 2 de junho de 2009

Resposta





Quero escrever-te como quem aprende. Fotografo cada instante, aprofundo as palavras como se pintasse, mais do que um objeto, a sua sombra. Não quero perguntar por quê, pode-se perguntar sempre por que e sempre continuar sem resposta: será que consigo me entregar ao expectante silêncio que se segue a uma pergunta sem resposta? Embora adivinhe que em algum lugar ou em algum tempo existe a grande resposta para mim.

Clarice Lispector in “Agua Viva”

domingo, 31 de maio de 2009

Hibernar
















- Eu gosto de dias frios e cinzentos de inverno.
- Dias assim lhe permitem saborear um mau humor.
Calvin

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Classes gramaticais

A vida é feita de substantivos. Palavras que tentam expressar, denominar sentimentos inexprimíveis, inomináveis. Palavras que tentam calar vozes que jazem mudas, que transpondem desejos. Ainda assim lá estão eles, os substantivos, como guardiões. verdade é que não há definição possível e exata para sentimentos intrínsecos como amor, dor, alegria, solidão... Qualquer um que tente utilizar, torna tudo prolixo e indubitavelmente vago, vazio.
Os adjetivos são uma tentativa desesperada de explicação, entendimento. Os seres preciam se fazer entender, mas também somos análogos, ambíguos. Entretanto, tal necessidade de explicar o inexplicável nos é latente.
Pergunto-me agora sobre os verbos. Em meio a tantos transitivos e intransitivos, só um se sobrepõe, só um se faz necessário, só um é sublime... Aquele que é o mais intransitivo de todos: Amar.


Aproveitando a semana de Páscoa e reorganizando desorganizadamente umas gavetas, encontrei, ou melhor, reencontrei uma parte de mim. Portanto, decidi iniciar uma série (?) de, digamos, ressureições ou seria isto um revival? Não sei. Bem, este está datado de 10 de Julho de 2007. Quase dois anos... Dois anos bem intensos desde então. É, como a gente muda. Que bom não ser a mesma.

domingo, 5 de abril de 2009

Anotações para Maio

Você me invade. E eu te rasgo. Distorcemos os paradigmas e não ligo se você vai embora logo. Sei que estará dentro de mim em algum momento, por alguns momentos. Espero que não cause feridas. Vou sangrar, eu sei. Sei também que só verei o sangue tempos depois na brancura das horas. Eu não me importo em jorrar. Eu me importo em não sentir. O nada me importa.

Suas promessas falsas me dão alívio, me fazem respirar. Uma mentira disfarçada de verdade é algo tão belo se dita por você. Você faz isso com primazia: Escolhe vocábulos, sintagmas, almas e ouvidos. Desta vez, por um acaso de quem está no lugar errado e na hora certa, você me escolheu. Na verdade, você se acomodou anatomicamente em mim, pois eu te apontei havia muito. Tua voz é melódica e tenho vontade de perguntar qualquer coisa sobre teu passado, que não me interessa, somente por te ouvir mentir mais alguns segundos. E todos os outros que continuem calados.

Eu construo tua imagem descabida parte a parte. À parte de mim está tua espera. Você diz e desdiz sua volta. O carnaval está próximo e eu quero dormir e sentir teu perfume, somente. Sem confetes, só o colorido de nossos corpos e íris. Meu querer-te é imensurável, mas você bem sabe que eu sei que você não vai ficar. Contudo, os quilômetros deixaram para trás, em mim, os amores e suas representações musico-cinematográficas. As semanas transcendem com suas mentiras mazeladas que amo tanto e, abrupto e aos poucos, você se vai.

Mal-me-quer. Te quis. Te disse. Te dei minha verdade. Confesso que sou uma tola, mas você esculpiu com tamanha primazia este querer que me conformo em te dar adeus. Você sempre foi errante. Você libertou meu espírito errôneo. Talvez um dia eu e você nos enxergaremos. Talvez, algum dia, nós...

sábado, 14 de março de 2009

Xeque-mate

É sábado e as pessoas estão festejando. A verdade é que nem ao menos sei porquê estou aqui. Acho que voltei a um estágio inicial de observância. Todas as vozes parecem ruídos e corro o mais rápido que posso para não perder as mais conhecidas. Não que tenha ficado surda, isso não. Os sons estão ininteligíveis e eu tenho pavor de enxergar e não entender. Cadê você que me faz tanta falta? Cadê todo aquele eu?

O dia transcorre transtornado e eu aqui pensando em você e movendo a torre, a rainha e o cavalo. Xeque-mate. A torre desabou por causa da minha mão. O líquido do meu copo transfigurou a rainha. Juro que estava indo bem no jogo. Tenho esta maldita mania de jurar e geralmente minto. Mas juro que estava indo bem no jogo. A rainha está diferente agora; está inexplicavelmente cheia da plebe e sua presença é artefato dormente. O cavalo move-se para todos os lados. De lá pra cá, de cá pra lá... Não pára. Arrasta-se. Não paro. Continua. Tento. O caminho não existe, ele se faz ao caminhar.

Quero fazer uma viagem, não importa aonde, pode ser aqui ou na China, não importa onde. Mover. O cavalo pode mover-se de todos os lados, para todos os lados, praticamente uma esquizofrenia delimitada por quadrados brancos e negros. Contudo, amava mesmo a torre. Amava meu sótão só com a janela aberta. Via estrelas cadentes e sonhava morrer quando uma caísse em mim, esta seria a morte mais bonita do mundo. Nunca joguei tranças, meu cabelo é curto demais. Deixava a porta de vitral colorido encostada. Era só invadir ou sorrir ou abraçar.

O líquido do meu copo esvaiu-se, inundando a torre. A rainha transfigurada observa silenciosamente ao longe. O sol se põe delicadamente e avermelhado. A noite altiva e prateada acaricia os cabelos desgrenhados da então aliviada rainha. Aliviada porque a noite iguala os seres. À noite todos são igualmente sós, mesmo que em sonhos.

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Chumbo trocado não dói


E no fim dos tempos os amantes trocariam confidências. Nem sempre aquilo que é dito na face do momento é real, mas as letras transbordam, ecoam. Para se falar de amor é necessário muito mais que amar. É necessário não envergonhar. Nós somos sujos e as palavras purificam...

Quarta-feira, 10 de Abril de 2008

Ela é do tipo de mulher que te inspira a mais divinal confiança. Com o passar dos dias e de como é seduzida, ela se entrega. Dona de um ímpeto diabólico, ela te propõe as loucuras mais masoquistas. Ela sempre te surpreende, não importa a maneira: por uma nova garrafa de vinho, um sutiã novo ou o mesmo vinho e o mesmo sutiã sobre o corpo. Ela dá uma sede viril, imperdoável. Engana-se quem acha que ela não se apaixona. Ela ama e muito, mas é um amor tão intenso e efêmero que te desconcerta por inteiro. Ela é uma ladra e faz com que um homem se envolva por vontade própria em suas tramas maquiavélicas. Ela nunca aceita nada; diamantes ou chocolates. Ela é carnívora. Oferece e devora banquetes. Ela é do tipo de mulher que te olha na cara, come teus olhos e faz você confessar as coisas mais inconfessáveis. Coisas estas que fariam qualquer um se afastar de você, mas ela não é qualquer uma. Ela tem um olhar-sorriso de canto que faz com que você sempre volte sempre que ela quiser. Contudo, ela sempre vai. Ela vai, mas fica. Fica porque nunca vai embora por completo. Fica porque deixa uma cicatriz, uma tatuagem... Ela deixa qualquer coisa de eterno. Meu quarto está cheio do perfume dela e quando lá adentro, sinto ainda aquele gozo melancólico, fatal. Ela ressuscita todos os dias. Nada de romances eternos; ela ressuscita todos os dias ao toque das minhas mãos em meus quadris. Depois, afogado em suor e sangue, volto para o quarto. Ela roubou minha cama, minhas cenas de banheiro e desconcertou meu paradoxo. Mas ela sempre vai.

Sempre vai.

Fica porque eu te amo. Fica por eu ser um louco em te amar. Fica porque há resíduos da tua pele embaixo das minhas unhas. Fica porque, por mais que você vá, nós não estaremos longe. Fica porque o sexo é meu, mas o gozo é teu. Fica para nos unirmos de todas as formas possíveis. Fica porque eu te amo.

Fica.

PS: Desculpe ter falado de você em terceira pessoa, mas esta foi a melhor forma que consegui: Ser indiretamente direto como alguém que contempla O Nascimento de Vênus e se hipnotiza.


Domingo, 14 de Abril de 2008
Você me seduziu com aquela tatuagem de Marte no teu braço esquerdo. Só então descobri que você é canhoto. Odeio números ímpares e coisas esquerdas. Gauche, este é você. Sou destra, mas longe dos direitos e longe de ser direita. Você me atropela, me entorta, me vira pelo avesso como um guerreiro patriota dizimando a nação alheia. Te odeio pelo espelho. Te odeio por esta minha miopia. Te odeio pelas vezes que, bêbada, alcanço a tua cama e não te encontro. Depois volto mais bêbada e nos encontramos na porta da tua casa. Você, sóbrio, querendo me matar; eu, bêbada, querendo me jogar. É isso que somos: êxtase e vômito. Esta nossa carnificina sadomasoquista é o que me dá vida. Amo as palavras sujas de teus livros e tudo que elas fazem comigo. Que venham teus zumbidos e barulhos. Amo os poemas de Álvares e tua voz à luz de velas. Você é honestamente desonesto e só eu sei como o relógio reluta em não sucumbir certas noites minhas. Tua frieza é furtiva, minha insanidade cristalina. Não somos óleo e água. Somos Dr. Jekyll e Mr. Hyde. Completos destroçados, metades em negros escombros.

Sim, sempre vou embora. Vou embora para não te dizer não. Vou embora para te ver sempre sóbrio, pois a bêbada sou eu, paulatina e agressivamente. Somos solitários in loco. Teus deuses me renegam e eu me rendo a eles. Sim, sempre vou embora.

Queria fugir-me... Fugir-te.

Comprei um novo quebra-cabeça. Sei bem que você é muito habilidoso com eles, eu não. Há ainda muitos espaços vazios. Fico. Fico para completá-lo. Fico para completar-me.

Fico porque te amo.

PS: Eu odeio domingos com ou sem você. Mas, ainda assim, preciso te ler em todos os pronomes pessoais de plural e singular.

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Grito


Me dá raiva pensar nisso tudo. Me dá tristeza pensar que você optou pela distância. Me pesa saber o quanto poderia ter te amado. Te entreguei meu corpo e guardei minha virgindade, não a de sexo, mas de todos os sentimentos que só conheci contigo. Não digo só sexo porque isto é algo que se resolve facilmente entre mãos e imaginação. Contudo, a magnitude do amor não pode ser criada à mão como estátuas de barro, nem mensurada pela imaginação do mais brilhante poeta.

Para sempre é a mais cruel das expressões; mantêm a alma encarcerada. Para sempre é uma das promessas que fazemos somente por um prazer masoquista; só não consigo ver uma verdade nisto. A que ponto chegamos? A ponto algum. A porta continua aberta. Os amanheceres sempre vêm suprimindo sua ausência momentaneamente. Mas eu vivo, as pessoas é que acham que não. Cada um vive a seu modo, certo? Eu vivo do meu. De silêncios em silêncios preencho minhas lacunas. Te vejo pelo vidro embaçado da janela e depois saio de casa. Você sabe muito bem que a chave extra fica embaixo do tapete.

Você fez com que eu conhecesse o arrependimento; o arrependimento da confissão, da confissão do amor. Hoje eu preferiria ter me resguardado de teus beijos, dos teus telefonemas. Preferiria ter me resguardado de você. Tenho o dom de afastar as pessoas de mim. Não seria diferente contigo. Definitivamente não sou um ser digno de afeto. E não digo isso fazendo um dramalhão; é realmente o que penso. Que as almas nobres possam me perdoar. Que você me perdoe.

Me perdoa por ser tão exigente, tão intrasigente, tão instável? Me perdoa por brigar quando você não me chamava pelo nome? Mas é que ele fica tão mais gracioso quando é você que o pronuncia. Preciso ouvir sua voz e o meu nome é a única coisa que ainda possuo. Não posso exigir tanto assim de você quando quem tem que ser doar sou eu. Mas fico feliz com seus movimentos e desejos que me dão insônia. Vem, volta ou me traz de volta. Estou com saudade da nossa paz.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

O espinho

“I was going to kill my heroine.”¹

Quando Rosa olhou para o lado não o encontrou. Doía não tê-lo por perto e ela precisava encontrar imediatamente uma forma de neutralizar toda aquela dor. Já sei, pensou ela, vou à costureira, pois tenho uma festa muito importante no sábado e quero ficar muito elegante. E assim ficou decidido.

A costureira de Rosa morava em Copacabana, mas ela precisava escolher os tecidos em uma loja lá na Avenida Rio Branco. Rosa detestava aglomerações cansativas, mas era por uma boa causa, convencia-se ela. Arrumou-se, colocou um salto agulha e batom vermelho. Sim, queria chamar a atenção dos outros. E Rosa era mulher bonita, sabe. Tinha um corpo bem torneado e dourado. Pois é, vamos nos ater aos aspectos físicos uma vez que falar dos interiores é assunto Freudiano.

Rosa também era uma mulher viajada. Claro que ela sempre se encantou muito mais com as arquiteturas gêmeas dos shopping centers que com o Louvre, por exemplo. Mas isto não vem ao caso porque se existe algo que não foge a regra e a nenhum ser humano é a dor. E era isso que Rosa sentia: dor. Dor esta, abafada pelo barulho e pelos tons fortes de seus sapatos e batom.

Então, perfumou-se, fez um coque no cabelo, entrou no carro e saiu. No caminho o único pensamento que Rosa tinha era sobre o inferno que seria encontrar um lugar longe dos flanelinhas para estacionar o carro. O destino parecia a estar ajudando, encontrou um lugar rapidamente e partiu para sua odisséia da cor e textura perfeitas. E encontrou. A felicidade era tanta que qualquer um poderia confundi-la com uma criança e seu doce. Talvez fugir desse aquela sensação de felicidade instantânea, um certo alívio. A cor do tecido? Indescritível.

Entrou no carro e ligou o rádio. Só a rádio não colaborou com ela, pois tocou todas as músicas cujas letras não queria lembrar e não podia mais dançar.

O que será ser sua sem você
Como será ser nua em noite de luar
Ser aluada, louca
Até você voltar
Pra quê

O que será ser só
Quando outro dia amanhecer
Será recomeçar
Será ser livre sem querer
Quem vai secar meu pranto
Eu gosto tanto de você²


Todavia, rádios são problemas fáceis de ser resolvidos. Cala a boca, ela disse apertando o botão power. Para a sorte de Rosa, Copacabana estava próximo e com isso a alegria pela confecção do vestido seria logo alcançada. Mal sabia Rosa que as pétalas das rosas são as primeiras a cair.


¹Virginia Woolf, personagem de Nicole Kidman no filme “The Hours”
²Abandono (Composição: Chico Buarque e Edu Lobo)


Espérer

Queria escrever, mas as palavras me fugiram. Não consigo esboçar um ínfimo de sentimento que seja, pois estes parecem trasbordar o limite das laudas. A gente passa por tanta coisa nesta vida que, em certa época, ter esperança parece ser contraditório. Não, não é... Apesar dos pesares, apesar de todos os gritos mudos e lágrimas secas.
Nunca acreditei em mágica e muito menos que as coisas por ela se realizassem. Contudo, se há uma palavra realmente encantada, está é recomeçar. Não que acredite em coisas nulas e que viveremos sem embasamento de situações anteriores. Caso fosse assim recomeçar perderia o encanto. Recomeçar é a capacidade de ir além de nós mesmos, de nossas amarguras. Todos experimentam o desespero, o nada, as máscaras. E daí que somos falhos? Dizemos não tantas vezes. Estar vivo é fácil, basta nascer. Viver é um mistério. Um mistério tão negro que nem sequer temos o direito a uma lição antes da prova.
Não consigo falar muito bem sobre pessoas. Sobre mim mesma também digo quase nada. Sou ambígua, prolixa e sei muito pouco. Por isso me bastaria o fim, mas não o quero. Não quero o conforto de quem vive se lembrando que tentou. Não, não... Quero que dê certo. Parece ser algo doloroso, um prazer estranho. Não posso concordar, muito menos discordar. Eu preciso que as coisas dêem certo. Estranho inconformismo. Então pra quê tentar se já começaremos nos remetendo a um não?
Não sei se procuro por dores, também não sei se gosto delas. Todavia, estou certa que gosto dos sabores e dos sorrisos e de poder fazer uma ligação durante a madrugada. Não quero esperas, apesar de saber que são necessárias. Quero esperanças com seus sabores agridoces. Esperar, talvez; esperançar, reconstruir sempre.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Bonne Année






Havia a um canto da sala um álbum de fotografias intoleráveis,

alto de muitos metros e velho de infinitos minutos,
em que todos se debruçavam
na alegria de zombar dos mortos de sobrecasaca. (1)


Começaram as enxurradas de clichês. Que coisa maldita! Os blá blá blás me irritam profundamente nesta época, pois parecem atípicos demais. Uma vez ouvi que os clichês, às vezes, nos livram de situações cujo controle nos foge às mãos. E, mais uma vez me pergunto: Quando temos o controle? O falatório continua. Contudo, este final de ano nem ao menos as gavetas consegui arrumar. Maquiar defuntos não é tarefa agradável e já que estão mortos mesmo, preferi deixá-los como realmente são e estão. Claro que todo ponto de vista é a vista de um ponto, mas e daí se sou míope? Provavelmente, só num mundo de cegos as coisas serão o que verdadeiramente são. (2)

Por falar em miopia, me lembrei do Bernardo. Ele era uma figura. Um ser compreensivo e, por vezes, meigo até demais. Mas o que isso importava se eu gostava dele mesmo assim? Experimentei várias coisas com Bernardo, desde álcool até ciúmes comedidos. Nos falávamos todos os dias ou, pelo menos, quatro vezes na semana. Cheguei a nutrir certo amor platônico por ele que foi assassinado por uma distância fatídica. No final nem paixonite, nem amizade. O elo se quebrou e a última coisa que soube dele é que foi morar em Brasília depois de romper relações com os pais e as irmãs. Achei muito estranho. Mas a política socialista de Cuba também era e eu não morri por isso.

O pior para mim é ainda amar você. Sim, você. Não cito nomes porque não quero ficar ouvindo seus ecos; eu não mereço ficar ouvindo sua voz. Algum tempo atrás você disse que nós seríamos para sempre. Eu sempre achei que para sempre e nunca abrangiam tempo demais. Mas que seja infinito enquanto dure. (3) Portanto pedi que fossemos mais devagar. Você citou um de seus autores favoritos dizendo que o amor era para ser vivido até a última gota. Golpe baixo. Acreditei. A esperança é pressuposto do amor e vice-versa. Você é fraco porque deixou eu te amar. Eu te amei. Eu sou mais fraca por ter te amado. Eu ainda te amo. Ele era triste e alto. Jamais falava comigo que não desse a entender que seu maior defeito consistia na sua tendência para destruição. (4) Mas, e daí? Continue passeando por aí usando seu Ray Ban com todo aquele ar de quem não se importa em importar-se. Continue levando esta merda toda, empurrando tudo isso com a barriga. Só não me olhe amorosamente e atenda as minhas ligações e pare de implicar com meu vício por chocolate.

Por falar em gula, ontem ganhei de presente uma caixa de bombons. Estes com recheio de mouse de maracujá. Delicioso, porém esquisito. O que seria a mistura de chocolate com maracujá? Ecstasy e Gadernal? Comentei isso com uma amiga muito querida, a Fabiana. Ela me ligou ontem, após algum tempo sem contato. Matei um pouco das saudades da risada alta dela. Fabiana sempre teve o dom de me alegrar e não haveria de ser diferente agora. Conversamos sobre tudo, como sempre. Foi sensacional senti-la feliz. Está casada e teve um casal de gêmeos univitelinos e isto era algo que Fabiana jurava não fazer nunca: casar, ter filhos e uma casa branca e barulhenta. Pouco importa, na verdade. A única coisa que sempre quis era ver toda aquela tristeza que ela tinha no olhar se dissipar. Consegui sobreviver para admirar tudo isso e torcer para que, um dia, sentisse o mesmo. Eu e ela sempre conversamos sobre tudo; sexo, drogas e rock’n’roll. As divagações eram tamanhas e não poderia ser diferente no que tange meu comentário sobre o chocolate e o recheio. No final chegamos a um denominador comum: chocolate dá o maior tesão. Nos despedimos. Mas as despedidas entre Fabiana e eu nunca eram tristes.

Meu quarto estava uma bagunça e eu estava com uma preguiça antagônica a vida. Odeio Física e as três leis de Newton, mas o que odeio mesmo é a inércia. Puta que pariu! Estava muito calor e todos estavam felizes. Como alguém consegue sobreviver a este inferno? Saí do meu corpo e me empurrei; levantei. Inferno astral. Comecei a organizar as coisas de forma superficial. Não sei se algum dia conseguirei transpor esta barreira, mas o importante é, ao menos, parecer organizado. Todos têm orgulho de mim, preciso me manter neste patamar. A razão da pseudo organização era André. Ele nunca me trazia chocolates, André é o chocolate em si. Ele falava pouco, mas era conciso. Curto e grossamente nem me perguntava, também não me dava tempo de uma auto-indagação, fazia e ponto. Nunca reclamei, até gostava. Gostava muito mais por André ser o tipo de cara com quem eu poderia passar quatro horas conversando ou quatro horas de quatro, sem cobranças. Nos dávamos bem de qualquer forma e em diferentes posicionamentos sem necessariamente concordarmos. Puro behaviorismo. Tanto os estímulos quanto as respostas eram excepcionais. Nos veremos novamente em breve, se não estiver realmente apaixonada por alguém.

Tenho uma amiga que sempre fala de amores comigo. Coitada, amou demais, recebeu de menos. E que ninguém venha com aquele papo de que o amor é desinteressado até mesmo do próprio amor. Ninguém ama sem ser correspondido opcionalmente; até que me provem o contrário. Apesar disto Diana cultivou em si uma doçura admirável. Costumava viajar bastante, independentemente de sair de casa ou não. Quando saía, sempre me trazia um anjo de porcelana; todos graciosíssimos. Não tinha coragem de deixá-los ao vento e na poeira. Portanto, guardava todos eles em uma caixa: Lindos e delicados como ela. Diana é uma das pessoas que me trazem esperança e cheiro de violetas. É uma das poucas pessoas quem tem valido a pena. Digo isto porque nos últimos tempos muito poucas pessoas tem valido a pena e minhas noites de sono. E mais uma vez me vem um pseudo autorzinho qualquer dessas porcarias de auto-ajuda e diz: O importante é quem você é e não o que as pessoas dizem. Ou, o importante é o que está em seu interior. Portanto, nunca deixe ninguém te pôr pra baixo. Ok, ok... Isto pode até ser verdade, mas não sei até que ponto as pessoas podem ser tão avulsas e tão desimportantes assim na vida de alguém. O que fazemos com a máxima de que somos seres sociais e sociáveis? É possível estar aquém quando se convive com pessoas diariamente? Bem, se algum ser conseguiu tal conquista, peço que entre em contato comigo pelo Orkut.

E por falar em contato, faz tempo que não vejo Verônica. Nós costumávamos ser muito próximas e gosto dela, de verdade. Nosso afastamento foi deveras estranho; nem saberia discorrer a respeito. Todavia, seria muito desleal de minha parte se dissesse que não estava um pouco enjoada dela. Odeio gente que vive em função de uma coisa só. Verônica vivia em função do namorado. Lamentável situação porque ela é muito inteligente, não neste aspecto. Não sei se era algum espírito famigerado, mas algo a dominava e ela não fazia nada alem de trepar, é claro, e pensar no bofe nas horas livres. Se o cara lesse o manual de como tocar uma punheta, ela lia também, somente por ele. Por ela mesma muito pouco... Quase nada. As leituras de Chomsky e Schopenhauer ficaram de lado. Nossa amizade chegou a um ponto quase Kama Sutra. Verônica me contava o que fazia e eu ouvia calada e até com certo nojo. Ora, isso não me interessava. Para mim me bastavam as minhas experiências ou, se quisesse ver sexo com terceiros, alugaria um filme pornô. Nada contra voyeurismo, mas isso e amizade não combinam para mim. Nos afastamos por motivos não muito claros, mas sexo e amizade não competem entre si. Ela vive me dizendo que não a procuro mais. Eu cago e estudo ao mesmo tempo e o meu telefone também não toca. Ah, quer saber... Vai se foder, concomitante e denotativamente. Espero que seja bem satisfatório porque eu estou satisfeitíssima.

Satisfação garantida. É isto que Rafael gera em mim. Ele é um daqueles homens lindos com três namoradas e que usa todo o charme para pegar muita gente aleatoriamente. Nos conhecemos a três meses atrás. No começo fiquei bem interessada nele. Bastaram algumas horas para eu ter certeza absoluta de que ele é um babaca completo. Praticamente um boneco inflável, daqueles que vem com acessórios e tudo. Me divirto. Testo meu poder de sedução, viro as costas e vou embora. Rafael sempre volta com uma esperança adolescente e eu me divirto. Contudo, ele nem desconfia. Avisei que ele era um idiota.

Às vezes me pergunto se não sou uma filha da puta ou será que é justamente este o problema: Deveria ser uma. O ar está pesado ultimamente e não estou falando de efeito estufa, aquecimento global. Me perdoem os ativistas do Greenpeace. Juro que desligo as luzes e torneiras quando não estou usando e só uso duas folhas de papel para secar as mãos. A questão é que hoje não estou com saco para falar de coisas nobres. Sou egoísta. Sou mesmo. Quem não é? Acho que as pessoas seriam mais felizes se assumissem isso. Todos dizem que não são e matam por ciúmes. Nunca vi ninguém rejeitar um milhão de Euros porque há crianças passando fome na África. A Jolie por mais legal e solidária que seja tem três mansões, um rancho, alguns carros na garagem, casou com o Brad Pitt (Sorte a dela!) e não com um angolano pobre. Adoro a África e a Jolie, que fique bem claro. Não quero dizer que ela está errada, muito pelo contrário. O grande problema é que as pessoas não assumem suas escolhas. Jolie é rica e decidiu ajudar, portanto dá a cara à tapa. É uma escolha. Somos todos hipócritas, a questão é como isso se intensifica. Se alguém escolheu ser piranha. Ótimo. Decisão própria. Só não banque a mais virgem e casta de uma estirpe. Este povo não entende que a pena é o pior dos sentimentos e que não sentir nada é pior ainda. Meus brônquios se abriram neste momento.

Estou no ônibus. Então, ouço uma dupla inusitada: Caetano Veloso e Roberto Carlos. Indago que porra é essa. Não sei o que é pior, se banda de “rock” Emo com dor de cotovelo ou esta dupla. Cacete, tenho que parar de xingar, mas é difícil. Palavrões são processos catárticos em tempos caóticos. Será que Focault explica? Fones de ouvido. Autismo em ação. Mais uma etapa parece terminada, a não ser pelo beijo que espero desde meus quinze anos. Todavia, consigo conviver sem isso, sem ele... Consigo mesmo. Não que sinta ódio. Todos temos um passado. Não me arrependo de nada que fiz. Experimentei quase tudo, inclusive a paixão e seu desespero. E agora só quereria ter o que eu tivesse sido e não fui. (5) Hoje de manhã, antes de sair, reli o e-mail da Verônica, tentei ligar para o Bernardo e escrevi o nome completo dele no livro que estou lendo (“Histórias de Amor”, Rubem Fonseca). Tudo no mundo começou com um sim.(6) Eu digo sim a cada segundo, a cada toque e mantenho todos os telefones na agenda do meu celular. Quem sabe algum dia. Quem sabe algum dia construa coisas novas com as velhas pessoas. Por agora preciso me reconstruir. A chuva cai pela janela e a música alta me deixa cada vez mais surda.

Um verme principiou a roer as sobrecasacas indiferentes
e roeu as páginas, as dedicatórias e mesmo a poeira dos retratos.
Só não roeu o imortal soluço de vida que rebentava
que rebentava daquelas páginas. (7)

Luz. Depois da freada brusca do ônibus, a cidade ficou mais bonita e iluminada. As lágrimas secaram. Estou leve. Posso voar. Sentirei falta, mas quem sabe um dia?! Sem cronologismos... Qualquer dia basta.



1, 7- Os Mortos de Sobrecasaca. Carlos Drummond de Andrade In Sentimento do Mundo
2- José Saramago In Ensaio Sobre a Cegueira.
3-
Vinicius de Moraes In Soneto de Fidelidade.
4- História Interrompida. Clarice Lispector In A Bela e a Fera.
5, 6- Clarice Lispector In A Hora da estrela.

sábado, 8 de novembro de 2008

O último

”Vou-lhes contar um segredo: a vida é mortal. Nós mantemos esse segredo em mutismo cada um diante de si mesmo porque convém, senão seria tornar cada instante mortal.”¹

Para Zeca, meu titio carequinha.


Estou na última página de mais um romance que chega a seu fim. Parece estranho que esta vida tenha que terminar após tantos anos de trabalho árduo para construí-la. E o mais estranho ainda é continuar lutando por ela, tal qual gladiador que enfrenta a fera muito mais forte que ele. Acabou. E o que fica para quem ficou? Talvez a certeza de um pacto de carinho feito outrora. Talvez o entardecer de vários domingos. Talvez o cheiro do cabelo. Talvez o tom de uma voz grave. Talvez uma parte da vida.

O último a me chamar de menina calou-se eternamente. Junto com ele, a menina também emudeceu. Agora a mulher guarda as lembranças de seu andar prejudicado por um desses acidentes que acontecem ao caminharmos em alguma estrada desta vida. Suas mãos não tinham muita força para segurar as minhas, mas eram suficientemente calorosas para me abraçar. A mulher continua a procurar-se por tais estradas que deixastes para trás e guarda todos aqueles abraços que foram reservados a ti.

Deixastes muitos órfãos; irmão, principalmente. Contudo, há certas alegrias que não morrem jamais. E é na perda que até os xingamentos são esquecidos. Se o tempo é ou não justo conosco, eu não sei. Acho que nós mesmos comentemos as maiores injustiças contra nós e contra o tempo. Não importa, Julho ainda é teu. Desejar-te-ei felicidades todos os anos, não em aniversários, sempre soube que não era uma aficionada por calendários, mas felicitações por tudo que construístes. Caso contrário não haveria lágrimas neste dia; tanto que hoje o sol nem nos sorriu.

¹Clarice Lispector in “Tempestade de almas”

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Claras incertezas



Não estava bem; não estava definitivamente bem. É com esta afirmação que tentarei tecer uma história ininteligível e indefinível.


Ela queria, não, para dizer a verdade, ela não queria. Parece que o não-querer havia se tornado parte de algo que não saberia explicar, pois era maior que todos os desejos guardados lá dentro. Dentro do ônibus, fones de ouvido, olhava as pessoas lá fora, mas não fazia análise alguma. A música a dominava, embalando o pseudo equilíbrio de seus sentimentos. Não era uma questão de encarar, mas de deduzir. Clara deduzira que havia chegado a um ponto ainda não ideal, mas suficientemente firme para não mais tropeçar nos paralelepípedos desta rua que a acompanhara desde sempre.

Esta rua larga, sem calçadas, não lhe dava nenhuma opção de desvios. Contudo, quando em vez, um estranho de olhos castanhos tão familiares, desviava-lhe o caminho. E ela ia. Ia porque a música alta evitava que Clara ouvisse o próprio grito desesperado do não. Sapatos elegantes calçavam-lhe os pés cansados e cambiantes. O batom vermelho denotava todos os desejos presos, como um grito mudo, em sua garganta. Ia porque gostava de caminhar. Então Clara caminhava doce e desesperadamente como um filho procurando o pai desconhecido.

Olhos cor de mar. Por vezes ela sentia-se parte dele, parte daquela imensidão sem dono, sem mundo, sem fundo ou tão profundo que era impossível alcançar-lhe o fundo. Clara sempre achou que o mar era triste. Deve ter sido por isso que Deus lhe deu olhos da exata cor do mar. O mar era triste? Sim. Era triste, pois para tal imensidão, não houvera gente apta a lhe render descobertas e, aqueles que nunca quiseram tentar, despejavam seus restos mortais. O mar carrega um peso incomensurável, assim dizia Clara.

Sempre gostou de ler. Ninguém nunca entendeu isso porque a leitura nunca lhe foi apresentada. Clara havia descoberto tal doce sabor sozinha. E era justamente sozinha que gostava de ficar enquanto lia. Sentava no chão, atrás da porta, ligava uma luminária e lia. Por vezes adormecia por lá mesmo. No dia seguinte Clara não sentia nenhum tipo de dor física, pois as doces palavras de seus autores favoritos serviam-lhe de analgésico. Acordava, só não sabia se estava pronta para mais um novo dia, mas acordava.

A verdade é que Clara tinha medo, muito medo.

Passou toda a vida tendo muito pouco. Mesmo que junto, estava separada. Vivia épocas diferentes durante a década de 80. Era romântica em seu interior. Contudo, com o passar dos anos, não se permitia mais divagar; tentava fazer de seus sonhos os mais objetivos possíveis. Daí começou a acreditar na velha sabedoria popular de que a cruz nunca é mais pesada que o limite pessoal do suportável. Por isso era exagerada. Sentia a dor e o amor, alegria e tristeza transbordando seus extremos. Transbordando como maré em dias de tempestade.

E nesses transbordamentos latentes, cada dia a mais, cada vez menos aquele reflexo no espelho parecia-lhe familiar. Mas, como enxergar-se quando o grande mal é uma cegueira negra sem precedentes? A verdade é que Clara tinha medo, muito medo e se tateava em meio as suas coisas e causas perdidas.

E foi em uma dessas noites sujas e nojentamente frias que Clara deparou-se na beira da praia. Os comprimidos já sem efeito ficaram jogados no tapete do quarto, um casaco preto e longo e um reflexo conhecido na imensidão verde.

Permita que eu feche os meus olhos,
pois é muito longe e tão tarde!
Pensei que era apenas demora,
e cantando pus-me a esperar-te.

Permita que agora emudeça
que me conforme em ser sozinha.
Há uma doce luz no silêncio,
e a dor é de origem divina.

Permita que eu volte o meu rosto
para um céu maior que este mundo
e aprenda a ser dócil no sonho
como as estrelas no seu rumo.¹

Se é nas origens onde as grandes verdades habitam, Clara conhecia todas agora. Se a solução dos problemas é apaixonar-se por si próprio, Clara esclarecera qualquer sombra de dúvida sobre todos os aspectos, pois, tal qual Narciso, lançou-se rumo a si mesma. A imensidão verde do olhar de Clara nunca pareceu tão serena, pois fechados, não procuravam mais nada.

Se Clara encontrou as respostas? Bem, a única certeza possível é a dúvida.

¹Serenata (Cecília Meireles)

domingo, 2 de novembro de 2008

Ao amor de uma noite qualquer...



Do amoroso esquecimento

Eu agora - que desfecho!
Já nem penso mais em ti…
Mas será que nunca deixo
De lembrar que te esqueci?¹



Haveria tanta coisa que eu queria te dizer: tantas declarações idealizadas por este meu amor sem nexo, sem sexo; tantas carícias de um amor renascido no tempo me fogem às mãos em total desordem cronológica. Esta não-lógica do que você é desafia o meu antes íntegro, inteiro intelecto. Esta não-ordem que me causa tua lembrança me faz feliz em meio ao caos de tua ausência. Remoer passados parece fazer parte de mim. Não consegui preparar teu velório, nem divulgá-lo. Então, mais uma vez, a certidão de nascimento desta loucura torna-se válida sem prazo de término.

Tal qual sommelier, bebo-te em goles lentos e degusto teus sabores em cada líquido que venha saciar minha sede. Busco-te em minhas letras tortas e em meus livros suicidas como remédio incontestável, infindável, atemporal. Acho que você tornou-se minha esperança. Agora eu sinto, pois, outrora, eu era dormente. Você é quem me invade as entranhas e me preenche, me seduz sem nem ao menos estar por perto. Daí eu te procuro, te escavo e te encontro aqui dentro, te ressuscito. Como uma relíquia, acalento este amor cuidadosamente em meus braços e rapidamente nos tornamos um.

Não sei mais quem sou; não sei mais quem sou se não me arrepiar, se não mais te encontrar. Necessito do nosso encontro, pois, assim como a lua parece descer e transbordar-se pelo mar, quero me afogar docemente em você. E se eu te dissesse neste momento que eu te amo, o que colheria de seus olhos? Brilho? Desesperança? Não sei. Não sei. O não saber dói. O não saber escraviza. O não saber mata a alma.

Releio-te em meus cadernos e passo a ter certeza que tenho te amado desde aquela data que nem sequer me recordo mais. Um dia que fugiu ao tempo não por não ser pouco importante, mas por ser tão especial e lindo que os calendários tornaram-se insuficientes para marcá-lo. O amor não é um trem que possui hora e local exatos para chegar e partir. O amor é um trem arrebatador que nos puxa para o seu interior e não nos deixa saber quando e onde parar. Agora sou passageira de um trem batizado com seu nome e sobrenomes. Acolhe-me; não me deixe mais sair. Peço-te: dá-me tua passagem só de ida ou, se preferir, volta comigo.

¹Mário Quintana In "Espelho Mágico"


domingo, 12 de outubro de 2008

Deriva claustrofóbica


“É como se a gente não soubesse pra que lado foi a vida, por que tanta solidão. E não é a dor que me entristece, é não ter uma saída, nem medida da paixão...” ¹

Decidi arrumar a casa. Decidi não mais tropeçar em você, nem escorregar no piso liso da tua pele ou ver-te nos quadros pintados a óleo.

Comecei pela sala. Lá encontrei aquele DVD que compramos em um domingo desses e nunca tivemos tempo de assistir. O quarto ainda exalava o cheiro vindo da camisa social que você usou na nossa última vez. Sabia que seria uma faxina difícil; e era indubitavelmente. Senti fome; fome de mim, de comida, de você. Água no fogo. 100°. O café desta vez não era nosso. Usei sua xícara com pouco açúcar.

A caixa que separei para guardar as lembranças já estava cheia. Onde guardar? Não podia deixá-la embaixo da cama; era grande demais. Era grande demais para mim e sua simples existência já era por si só claustrofóbica.

Se era faxina, que fosse de verdade. Tomei banho. Um banho bem diferente dos usuais; um banho rápido e simples. Sem muita espuma, nem importantes fragrâncias. Coloquei uma blusa branca qualquer só porque você não gostava de branco. Não quero nada mais disso tudo que restou; não quero mais nada daquilo que não construímos. Não quero mais suas esperanças e seus eu te amos que dão voltas nas vinte e quatro horas do dia e chegam a lugar algum. Não, nunca, jamais e todos os advérbios de negação possíveis em todas as línguas que você fala. Queria lavar minha alma de você.

Que vá, que vá para longe e não dê mais notícias. Não quero saber das mulheres que entram em seu carro nem de seus passeios. E daí que sob sua ótica o céu de Londres estava lindo? Não. Esta é a única resposta da qual tento me convencer no momento. Tomara que em seus longínquos caminhos você não precise olhar para trás. Todavia, se precisar, espero que o dia esteja nublado, tão foggy quanto as manhãs londrinas. Quero uma cortina de fumaça entre nós.

Guardei tudo em uma caixa: seu discurso, o Big Ben, o Bentinho, a Capitu, El Libro de las Preguntas, as fotos de paisagem, suas mesóclises e ênclises e seu francês fajuto. Pedaço por pedaço, queria te desovar naquela caixa; acho que consegui. Saí apressada e cansada; tudo estava bastante pesado. Pesado meu corpo que carregava a caixa. Pesada a caixa que levava minha alma.

Parei na ponte de uma praia qualquer. Em frente brilhava aquela imensidão poluída de um mar outrora cristalino. E logo atrás havia todas aquelas buzinas, propagandas políticas e a gente que muito via e pouco enxergava, apressava-se neste vai-e-vem tão complexamente simples. Embaixo da ponte, pescadores limpavam o peixe recém pescado que estaria bem cedo no mercado municipal. Será que eles são felizes, indaguei. Não sei. Mas quem é feliz? Acho que ninguém, respondi. A retórica é minha perdição. Perdi o foco. Voltei. Voltei ao nosso enterro de ossos, ao enterro do esqueleto deste amor caduco. Prometi a mim mesma que jogaria tudo fora; tudo bem amarrado ali dentro.

Vivo me fazendo promessas vãs e mais uma vez não consegui. Desfiz o nó e refiz aquele lá na garganta. Peguei nossa foto, a foto mais bonita, a que tiramos em Vancouver no nosso último verão juntos. Admirei teus olhos grandes e negros que, às vezes, não parecia combinar com tua pele clara. Contudo, eram eles os que eu jamais quis ter que esquecer. Quebrei mais uma promessa, a de não chorar mais. E duas pequenas lágrimas rolaram do canto do meu olho direito. Deixei que o vento as enxugasse. Afinal, venta muito na primavera.

Um pescador, um senhor de idade, me observara sob a ponte. Preocupou-se e em um gesto nobre veio perguntar se estava me sentindo bem. Sim. Claro, respondi. Ele olhou-me profundamente e disse: “As feridas da alma são assim mesmo, menina. Demoram.” Sorriu e saiu. Ele tinha razão, mas por hoje é só; estou só.

Havia levado um frasco de uma substância inflamável qualquer, mas desisti de atear fogo na caixa. Lembrei das histórias sobre garrafas que eram jogadas ao mar com uma mensagem de amor dentro. Decidi jogar a caixa com tudo, com o nó cego no mar. Pensei que, talvez, algum poeta grego pudesse encontrá-la e decidir escrever uma ode. Ou que servisse de fôlego para uma declaração de amor mar afora. Ou fizesse um marinheiro lembrar de sua esposa e filhos que o aguardam ansiosamente no lar. Achei que, jogando a caixa, poderia ajudar alguém; poderia ajudar um amor como não pude ajudar o meu. Parece que quando o amor não é mais recíproco, deixa de ser egoísta e torna-se altruísta. Ah, sei lá, deve ser mais uma das minhas teorias malucas que surgem de uma epifânia e se vão junto ao vento.

Joguei. As lágrimas ainda não haviam secado. Levei um tempo admirando nossa vida agora náufraga. Virei às costas com a conclusão de que somos todos tolos. Afoguei a matéria, mas a alma continua viva, à deriva.

¹Música: A medida da paixão. (Lenine e Edu Lobo)

sábado, 11 de outubro de 2008

Outubro

E vinham todas as épocas, todos os meses de todos os anos e você parecia-me cada vez mais distante. Os outubros vindouros nunca mais foram os mesmos sem a possibilidade de amar-te novamente. Era um desejo doído; uma ânsia sufocante. O medo de te ter por perto sem te ter, a alegria de teu rápido fitar eram minhas esperanças. Este meu amor paradoxal nunca me permitiu abdicar de mim e menos ainda de ti. Todavia, é este mesmo amor que quer jogar-se no precipício de teus abraços e lançar-se na fogueira de teus beijos. Sinto um gosto de amor de não-sei-quê, surgido não sei de onde; só tenho certeza que foi em uma dessas noites estreladas qualquer à beira-mar.

Olho para o céu e vejo um daqueles meteoritos que outrora afirmaram conceder desejos. Não, não é a nossa estrela, mas você é o meu pedido. Pouco importa uma única estrela se teu olhar é o céu. Aos sábados só me é permitido sonhar contigo; é praticamente uma ditadura deste meu coração insano. No domingo é como se cada voz ao telefone fosse a tua. Então, fecho meus olhos cegos, cansados de tuas rápidas aparições e me embalo nas antigas canções de jazz.
Nesta vida tem-se muito pouco e não sei como você tornou-se tanto assim. Amanhã inicio uma nova semana de um novo mês: Outubro; o nosso mês. E assim eu te quero, assim eu te amo e assim eu te espero. Quem sabe você não volta esta semana, quem sabe semana que vem, quem sabe a outra. Só sei que o céu de outubro é muito mais belo por seu teu, meu... Nosso.

domingo, 7 de setembro de 2008

O triste

Guardou esta manhã
para chorar longamente,
o que não fazia há muito.

Não porque setembro,
não por um fato específico,
um isto que fosse. Ou,

de tão antigo, seria um motivo que
não recordava e agora o hálito de seu abraço
frio e sem rosto?

Guardou, para tal manhã,

olhos e boca. Mas o rápido,
repentino sumo de uma luz

pelas frestas veio dar nos livros,

o telefone, crianças lá fora, jornais
e talvez, e ainda.

Manhã tão breve.

Quem sabe, depois, outubro.
Hoje não houve tempo.


Eucanaã Ferraz - Rua do Mundo

sábado, 6 de setembro de 2008

Olimpo

Se tiverdes que vir, que venhas de verdade. Que abra as portas como verdadeiro dono da casa. Não quero aluguel. Quero papel timbrado e firma reconhecida pelo coração. Se realmente me amas, joga fora essas reservas; deixe que teu rio transborde dentro de mim. Quero tua história, teu berço, teus lençóis e datas tristes. Navegarei em teus mares, deitarei em tuas planícies, desbravarei tuas florestas e escalo teus montes em um contato despudorizado com tua geografia.

Se tiverdes que ser meu, que sejas por inteiro. Que venhas com toda força e todo verso; quero te sentir comigo e dentro de mim. Não quero só teus sorrisos de canto, quero o céu e o céu da tua boca. Se quiseres gritar, grites. Mas prefiro teus sussurros ininteligíveis ao pé de meus ouvidos. Cantarei tuas cantigas de amigo e teus versos livres. Quero a prosa consistente e tua poesia ardente em qualquer língua. Quero a biologia com todas as fusões e difusões e a matemática do um e um que se tornam um.

Se tiverdes que semear, que te espalhes por todos os meus campos. Que tuas borboletas pousem em todas as minhas flores e reluzam. Não quero os buquês de rosas, quero tuas sementes. Se pretendes fazer colheita, traga teus ventos e maremotos; não quero só tua calmaria, mas teu vigor de agricultor. Quero tua vida latejante nascendo em meu norte; quero-te nos pontos cardeais do meu corpo. Quero a beleza de Vênus e a sedução de Eros. Quero um Olimpo teu e
meu.

domingo, 3 de agosto de 2008

It's over!




And the award for the best liar goes to you for making me believe that you could be faithful to me. But it's over now.


I don't believe anymore...

Amar e malamar. Amar e desamar.


Existe algo além deste céu gris, além deste pseudo-amor, cujas migalhas foram somente o quê você pôde deixar cair para eu me alimentar. Além de tudo isto estou eu, está minha alma. Meu coração, mesmo que partido, ainda bate forte. Aprendi que qualquer caco, mesmo que sejam pequenos os pedaços, têm fibra e corre uma vibração elétrica que tenta agitar-me. Meus olhos ainda guardam teu reflexo. Contudo, não és mais o que vejo ao acordar ou aquilo em que sonho ao dormir. Escapo da tua imagem seja ela viva ou em pensamento. Quando ver dói, viro meus olhos para observar outros movimentos e paisagens. Nestes eu não te encontro; não te encontro em meus horizontes. Não te dedico mais as linhas de meu caderno nem meus perfumes. Não cultivo mais os porquês e olvidei todos os questionamentos que outrora quis te fazer; não quero que ocupe nem mais um milímetro das minhas dúvidas e pensamentos. Após você, há a minha vida e foi este o presente que você recusou, mas que eu cultivo com exímio carinho.

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Ela, as janelas e Ele

“E ninguém é eu, e ninguém é você. Esta é a solidão. ”¹

Nem sabia por quê escrevia. Havia escrito tanta coisa e nem se importava com elas, pois não mais havia um alguém para dedicá-las. Sentia que tudo era em vão. As flores não floresciam com as mesmas cores brilhantes de antes. As folhas avermelhadas e grandalhonas não mais serviam como marca-página do livro favorito. Ler; não lia mais. Não mais pegava sol, nem sentia a brisa.

Sentada ali, magrinha como uma menina, passava dias inteiros. Ninguém entendia. Aliás, ninguém nunca entendeu. Encontrou naquilo sua fuga: na neutralidade. Escrever era seu purgatório uma vez que o céu nunca conhecera e não queria voltar ao inferno.

Escrevia.

As grandes janelas sempre ficavam abertas, pois assim podia assistir o mundo. Aquele mundo todo de gente apressada pra lá e pra cá. Observava uma obra de arte e seus autores em movimento. Os olhos grandes e castanhos pareciam estar constantemente assustados. Ouvia um barulho e tremia, gelava. Era então que a caneta parecia ganhar vida e compor sinfonias inteiras naquele caderno sofrido. Passavam-se horas. Vivia. Respirava. Aqueles minutos eram como oxigênio para alguém ofegante.

Ofegava, escrevia e com os olhos encharcados observava a moldura viva bem em frente. Escrevia. Não chegou. Não chegava nunca. Não voltava nunca. O amor não ia embora nunca. Nenhum daqueles barulhos era o barulho dele.

A estação com raios de ouro ultrajantes chegava para depois as grandes folhas espalharem-se nas ruas deixando os frutos à mostra. Os ventos cortantes cediam lugar à sedução dos perfumes florais com seus coloridos. Ela observava, chorava. Nenhum daqueles barulhos era o dele.

Silêncio.

Observava. Dispersa a vida passava como aquelas pessoas na rua, contrapondo-se ao ideal, ao real, ao visceral e ela, sentada, observava e escrevia. Contudo, com o passar das horas e dos passos, cada palavra naquele caderno tornara-se mais e mais incoerente. Mal sabia que a vida é feita de passos construídos pelos segundos e não andar era suicídio.

Observava e escrevia e nada mudava e o amor não voltava. Assim, cada dia era uma pequena morte e ficava cada minuto mais longe de si mesma e daqueles barulhos que nunca eram os dele.

¹Clarice Lispector In: "A descoberta do mundo"

terça-feira, 1 de julho de 2008

Pra ser sincero o meu remédio é te amar, te amar

E eu te amo antes mesmo da ciência disso;

Naquele dia em que teus dedos passaram por entre meus cabelos, empurrando minha cabeça para trás me fazendo fitar em teus olhos, quando derramei algumas lágrimas por pensar que não seríamos mais possível.

E eu te amo desde sua fonética ora desengonçada;

Em todos os livros que encontro um mocinho-vilão que rouba o coração da mocinha e no antigo cachecol sinto teu cheiro e é este mesmo que procuro pelos corredores adentro.

E eu te amo em todas as conjugações verbais;

Desde o primeiro sorrir, sem ao menos perceber, era você que sempre estava lá.

Mais imperceptível foi ainda, nos intervalos matutinos para o café, o te amar.

E eu te amo!

domingo, 22 de junho de 2008

Quando o inverno chegar

Para Marina, minha prima.
“Mrs. Dalloway always giving parties to cover the silence.”¹

São esses silêncios que nos acordam desesperadamente em um domingo desses e nos fazem relembrar, reescrever. Sempre gostei dos silêncios como forma de auto-análise e como remédio temporal. Contudo, o silêncio que guardo hoje é pela tua não-presença. Nestes silêncios consigo ouvir tua risada alta e ver as mesmas cores de quando nos escondíamos no armário tempos atrás. E das coisas que deixei lá dentro uma delas é você, guardada em uma caixa de porcelana inquebravel. Descobri nesta trajetória que os diamantes não são as únicas relíquias duradouras desta vida. As lembranças também são eternas na fugacidade da existência e mesmo que eu dê muitas festas nestes trezentos e sessenta cinco dias que contemplam um ano, você será sempre convidada nem que seja para dançar aquela valsa lenta e muda que posso te dedicar. As rosas amarelas guardam teu cheiro e aos domingos elas perfumam mais. Tenho medo destes dias que iniciam uma nova semana, tenho medo do que eles possam fazer comigo. Todavia, era quando mais brincávamos e nos escondíamos. Hoje isso tudo mudou; nossas vidas mudaram e para alguém como eu que não possui diamantes, só me restam estas lembranças da chegada do inverno. Portanto, aqui estou eu te dedicando o mais singelo da minha alma: minhas saudades.

¹Richard, personagem de Ed Harris no filme “The Hours”.

terça-feira, 17 de junho de 2008

Gotta say...




And I STILL don't believe that anybody feels the way I do about you now...

domingo, 15 de junho de 2008

Volúpia

Eram dez horas da noite daqueles dias ambíguos. Daqueles dias que não fazia nem calor, nem frio. Naqueles dias meu coração não parava, não mais sabia o que sentia. Foi assim que me vi caminhando por uma dessas ruas qualquer e me flagrei, parada, em uma dessas esquinas duvidosas de uma rua que não se sabe o nome. Não sabia nem o meu nome. Contudo, queria esquecer o teu. Teu nome ecoava entre os intervalos quase que agonizantes da minha respiração. Era como se pudesse te ouvir nestes entremeios, sentir tua língua no meu colo e suas mordidas latejando em meus seios.

Lembrei-me de Shakespeare, soneto 116: [Love] is the star to every wandering bark, Whose worth’s unknown, although his height be taken.

Olho para o céu. Procuro nossa estrela. Não, não eram estrelas; eram seus olhos as fontes de luz de todas as noites. Aliás, todas as noites são tuas. Não existe noite sem teu cheiro, sem teu colo, sem teu sabor, sem tua saliva. E se não há noite, os dias se tornam dormentes. Hoje está calor. Bem, não sentia calor há dez minutos atrás. Mas tua lembrança me aqueceu de forma tão arrebatadora que poderia até ouvir nossos sussurros e uivos e gritos e todas as declarações.

A barraca que vende sorvete estava aberta. Comprei um sorvete. Sorvete de chocolate, da cor da sua pele. Era do gosto da tua língua. Olhei para os lados, só a vendedora estava ali comigo. Não, não comigo; ela estava ali naquele lugar. Acho que eu era a única louca a degustar, saborear um sorvete em uma noite tão fria. E se o fazia era por causa do calor que me transbordava. Torcia para não encontrar ninguém conhecido. Não queria dar satisfações, nem responder perguntas. Toda pergunta feita em momentos inoportunos se torna idiota, pelo menos para mim. E aquele momento era teu.

Meia-noite. Mais uma noite. Uma noite a menos?

Volto para casa. Essa casa que é minha, mas que está muito mais cheia de ti que de mim mesma. Tomo um banho e tuas mãos continuam ali; a água escorre violentamente em meu corpo e as tuas mãos continuam ali. Coloco um perfume estratégico em um lugar quase invisível e penetrado somente por suas narinas. Todavia, não consigo sentir nenhum outro cheiro que não seja o teu. Volúpia. Esta palavra não saia da minha cabeça. O lençol da cama era vermelho. Não te encontrar ao meu lado era me arrancar o âmago dos prazeres, era não me sentir, era não mais desfalecer cansada em teus braços, era não mais cravar minhas unhas curtas em tuas costas.

Mas não consigo ficar parada. Não consigo suportar este oco eco que escuto ao gritar teu nome. Procuro-te em outros corpos. Quem sabe um dia eu te encontro ou me perco de vez.

Passionfruit

Hoje resolvi tirar o dia para observar. Talvez tenha feito isso porque tudo que desejei hoje era ir para casa, tomar um longo banho frio sentada no chão do box, vestir uma roupa leve e sair. Sair, mais precisamente ir à praia. Todavia, não era um ir à praia que compartilhava a alegria efusiva do excesso de melanina nos corpos bem torneados (ou não). Era um ir à praia medicinal. Queria tomar sol para curar-me do escorbuto interior. Sim, era doença. Pensando bem, não era falta de vitamina d, mas de serotonina. Infelizmente nós, seres humanos, inventamos a pós-modernidade (ou será que ela inventou-se?!) que a cada segundo ofegante que passa sofre uma mutação que chega a ser um insulto à nossa sempre tão ínfima sanidade. Esta pós-utopia, ou seja lá qual nome utópico, possível e passível de dar à esta era, (re)surge a cada aurora como uma gripe ou uma dessas –ites que todo mundo tem, cujas origens são desconhecidas, mas vivemos inventado pomadinhas, tratamentos à base de oxigênio e nos entupimos de pípulas milagrosamente messiânicas que não multiplicam nem pães, nem peixes e muito menos transformam água em vinho para nossa embriagues dormente ou em xaropes para uma futura crise.

É, observei e ainda queria ir à praia só para me sentir viva. Era como se aquele vento massageasse meu corpo que estava tão dolorido naquele dia. As cólicas pareciam-me retorcer cada fibra. Talvez isso fosse causado pelos burburinhos escandalosos causados pela proximidade do Dia dos Namorados. Mais uma vez é a luta pela sobrevivência. Esses dias comercialmente comemorativos parecem até fila de comida para famigerados; é uma correria cambiante onde os cartões de crédito, usados euforicamente, parecem poder comprar uma felicidade noturna do dia 12 de Junho. Ora vejam, sempre fui fã dos beijos roubados no elevador ou até mesmo daqueles puxados pela cintura ou das conversas mais despretensiosas que culminam em declarações e em olhares inesquecíveis. Partindo disso, ah, para quem ama, todo dia é dia 12. Respirei, contei de um até mil e voltei a ler. Em tal livro o narrador-personagem falava de um outro tal livro em francês (ah, definitivamente eu preciso aprender francês) que mencionou algo sobre o amor: na primeira juventude, o amor é como um rio imenso que arrasta tudo em seu curso, e ao qual sentimos ser impossível resistir. Era isso. Resistir pra quê? Que viva-se o dia 12, cada um ao seu modo. Contudo, eu ainda prefiro os 12 dos 365.

O dia passou assim: silencioso e visceral. Queria escrever, mas sempre achava tudo uma grande besteira mesclada com uma timidez latente que de tão bem escondida chegava ser desconcertante. Suspirei e contei até trezentos e pedi um suco de maracujá. Ao beber a iguaria, lembrei-me do nome de tal fruta em inglês: passionfruit. Definitivamente não precisava lembrar-me disso. Sabe quando você se auto-aconselha um “Pelo amor de Deus, né?! Hoje não!” para logo em seguida se auto-responder “Ta certo. Ok!”. Paguei a conta e fui embora com gosto de passionfruit na boca. As pessoas ao redor traçavam planos de bares e finais de semana e trabalhos finais e seminários e churrascos. Era tanta gente falando e todas aquelas vozes me incomodavam; queria silêncio.

Para mim o silêncio era tão importante quanto água e ar. Silenciar-me era alimentar-me, acalentar-me. Precisava disso porque era no silêncio que deixava minha bagunça interna gritar. E não adianta, o grito é direito adquirido desde o momento em que um médico qualquer nos dá um tapinha para que choremos, uma forma de dar-nos as boas-vindas. Bagunça. Será que um dia arrumo isso? Sinceramente acho que não. E aquele silêncio gritava paradoxalmente com aqueles barulhos pós-modernos onomatopeicamente indescritíveis. Até que resolvi acolher a ausência e me fartar dela. Isso mesmo, minha tarde de observações acabara. Foi então que percebi que observei muito pouco. Meu analista faz falta e ele também. Voltei para casa e sentei nua no chão do banheiro. As cólicas haviam passado quando duas longas e demoradas lágrimas escorreram do meu rosto. Contei até mil. Já estou pronta para um amanhã: cortada, mas inteira.