sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Desculpem o transtorno, mas...




Eu sou aquilo que muita gente chama de "vândalo literário". Sim, eu rabisco meus livros, desenho corações, choro em suas páginas... Lindo, lindo, lindo... Quanto maravilhamento há quando os dedos talvez cambaleantes daquele autor possuem o dom de engendrar minha alma com suas frases únicas e universais.


Sim, eu sou uma vândala, não daquelas que tentam profanar as escrituras sagradas, mas daquelas que querem fazer parte delas. Corações, corações, lindo, lindo, lágrimas lágrimas e vou me tornando parte daquilo, insiro-me naquele universo. Os meus livros vandalizados são meus e contam uma história somente minha – são minha biografia talvez.

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Offspring

Nosso amor começou numa noite dessas, amenas, de primavera. Eu acreditei em amor à primeira vista quando a lua refletiu no verde escuro de seus olhos – nada foi tão belo quanto aquele momento. Eu nasci para você. Você nasceu para mim. Nascemos. Juntos fundimos nossas vidas continuamente. Fomos um, dois, dez, um milhão e depois um novamente. 

Vivemos as cores das noites em claro e a monotonia dos dias sem cor, você e eu. Fomos guerreiros e senhores de nossas próprias guerras. Rastejamos e nos reerguemos, você e eu. Celebramos vitórias silenciosas e fomos plenos de tudo e de nada.  Fizemos um milhão de experimentos durante nossa inexperiente trajetória. Nós nunca crescemos, sempre fomos peter-panescos. Nós nascemos mortais, mas vivemos como imortais. Queríamos viver cem anos, mas fizemos tudo errado.

Nos álbuns silenciosos cheios de som e fúria que guardo, eu escuto suas declarações de amor. Eu escuto seus muitos eu-te-amos. É a minha biografia sendo contada pela tua voz. É a minha voz abafada de consternação e maravilhamento de nossas ideias e sentimentos. Nesses álbuns silenciosos estão todas as viagens que não fizemos, todos os aniversários que não nascemos, todo o pão que não compartilhamos. Neles estão toda a vida que vivemos e a que deixamos de viver


Todas as canções que você fez para mim ainda ecoam no silêncio da tua voz, elas são minhas canções de ninar. Até hoje deito nos divãs imaginários dos sonhos para ouvir teus conselhos e sons. Releio todas as cartas que não escrevestes e rabisco falsificações estúpidas da tua assinatura. Oro tuas orações e acordo de joelhos. E te bendigo resilientemente, sabendo que tua partida é minha maldição. Mas eu te bendigo. Bendigo-te pelo amor que nunca morre e pela eternidade que nunca chega. O teu nome é a minha prece. Que assim seja.


Para meu pai, que deixou o ninho vazio

sábado, 9 de junho de 2012

(Uni)Versar

Eu faço versos como quem morre ou talvez faça versos como quem vive de insistir em esperanças esvaziadas. Eu faço versos para fugir de mim e para não deixar o outro escapar, ir embora de mim. Mas quem sabe se faço algum verso decente? Eu não sei e ninguém nunca me diz. Se me dizem a impressão não se torna verdade; a impressão se torna uma marca, mais uma das marcas. Na verdade, acho que não faço verso algum. Toda palavra que transborda é ausente de significação ou tão cheia dela que explode em tintas. Não sei lidar com os trabalhos e a polidez denotativa. A miscelânea conotativa faz de mim um mero figurante. Eu não faço versos; eu inflo, vou até o topo e me implodo. Eu esvazio o vazio para enchê-lo novamente de impurezas. Eu não sou poeta, nem escrevo prosas; eu sou mundana e giro neste mundo em desespero - desesperança de não pertencer ao aqui. Eu escrevo gritos de auto-flagelo. Escrever é viver mil vezes; escrever é amar mil vezes. Escrever é nunca desistir. Eu escrevo porta-retratos de fotografias sépias. Fotografo mil vezes o momento para tentar dar movimento àquilo que foi congelado na memória. Eu tenho mil álbuns de letras tortas e muitos deles sem fotos. Eu escrevo para dizer sim e movimentar os acordes alveolares. Eu escrevo a covardia da parole. Eu escrevo os cabelos de Sansão jogados ao chão. Não escrevo haxixe a Baudelaire, nem ópio a Poe, escrevo palavras derrotadas e elas mesmas são meu vício. Eu falo daquilo que poderia ter sido como trabalhos de Hércules que nunca pude cumprir. Eu não faço versos; eu choro versos. E que ninguém se iluda se algum dia os versos parecerem simples, pois lágrimas são essencialmente prolixas. Eu escrevo ambíguas veleidades e duvido das certezas. Eu poetizo a dúvida e é isso que mata. É, eu faço mesmo versos como quem morre.

sábado, 19 de maio de 2012

Lenga-lenga


Os homens têm essa vantagem de ver as coisas de um modo simples o que, infelizmente, não acontece com as mulheres. Ontem decidi comprar uma lingerie (ponto pra mim), passei um tempão escolhendo algo que, em minha opinião, nós dois iríamos gostar. Bem, pra uma pessoa que tem uma baixa autoestima como eu isso é algo realmente difícil. ‘E daí?’, você diz. E daí que a gente vai tentando fazer as coisas de um modo diferente até elas se encaixarem e você realizar que, putz, você deveria ter feito isso há algum tempo. Casar é difícil pra qualquer pessoa – o dia-a-dia acaba virando um remoer de problemas externos, de cansaço físico e mental, de coisas que deveríamos jogar fora. Quando uma mulher casa com um homem, ela sente, mais que nunca, a necessidade de ser, de se sentir mulher. Foi isso que quis fazer ontem após algumas semanas de cansaço e de muitas críticas internas e também para comemorarmos nosso 2 meses juntos. Tirei várias fotos e fiquei algum tempo em dúvida se deveria ou não enviar. Nothing ventured, nothing gained... Enviei. ‘Legal’ não era de fato a resposta que esperava. Fiquei tão desapontada, não puta, mas triste. Triste por não conseguir despertar em você tudo que gostaria de despertar, triste por profanar o lugar sagrado que seu trabalho é pra você, triste por perceber que você preferiria que fosse uma foto de um prato de comida. Fiquei triste também por perceber que consigo despertar alguém coisa em você (apetite, colaboração, raiva), mas nunca consigo despertar seu desejo quando quero. E eu só consigo me sentir frustrada com isso.
É isso. Sinceramente não espero que você compreenda tudo isso ou minha reação a tudo isso. Acho também que estou fazendo uma besteira muito grande enviando esse e-mail, mas é assim mesmo.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Quase 1 ano sem postar aqui...
As coisas vão ficando mais intensas e silenciosas com o tempo e as postagens causam um certo desconforto.

Jardim

Quando passei por esse jardim de luz de sol entrecortada pelos galhos das árvores e de folhas velhas, caídas, já sem vida, no chão, lágrimas de algo que não sei descrever brotam dos meus olhos. Poderíamos ser tantas coisas naquelas horas que precediam um crepúsculo cor de púrpura. No entanto, conseguimos ser somente você e eu – humanos, demasiadamente humanos, já diria o filósofo que, assim como nós, também não soube amar nem se deixar amar. A luz do sol, mesmo quando fraca, me incomoda e desfoca tudo que está ao meu redor. Talvez seja melhor assim, eu e minhas lembranças distorcidas embaladas por uma caixinha de música imaginária.

Ainda guardo uma caixinha de música que ganhei quando tinha três anos. Meu pai se embalava com aquela canção todos os dias. Talvez ele nunca tivesse aceitado o fato de eu ter crescido e acho que nem eu aceitei direito. A brisa entrecorta minha pele enquanto minha visão turva imagina um sorriso teu. Você nunca sorriu verdadeiramente nas fotos em que estávamos juntos e te ver feliz com outras pessoas era tudo que me restava. Eu consegui fazer com que você me amasse como sempre sonhei, só não consegui transformar você em meu lar. Ainda bem que você passava os finais de semana fora, assim eu teria tempo – tempo pra sentar no sofá e perceber que você, apesar de tudo, era meu pedacinho de paz. Seria possível amar e odiar alguém ao mesmo tempo e na mesma proporção?

Há tulipas no jardim, minhas flores favoritas. As tulipas são belas, coloridas e reservadas, somente uma abelha muito abelhuda consegue saber o que realmente há em uma tulipa. Você nunca soube que eu escrevo. Ainda bem porque você me diria que isso é coisa de adolescente e que preciso amadurecer. Eu acho que preciso amadurecer, mas se sequer a dor me fez ser alguém diferente, como conseguiria isso? Eu gosto de tirar fotos de pessoas que não sou e de pessoas que não conheço, pois me sinto confortável. Gosto de sorrir descaradamente embora sinta que cada dia a mais me sinto cada vez menos feliz, assim como um pássaro que canta não por felicidade, mas por instinto. Disfarçar é instinto de sobrevivência.

Há muitos pássaros por aqui, mas eu escuto uma música qualquer nos fones de ouvido. É incrível como as dores humanas são semelhantes e é incrível como as alegrias são discrepantes. Discrepante é todo esse colorido em contanto com alguém gris como eu. Eu quis ser a mais bela mulher do mundo pra você, mas eu não fui. Não fui pra mim mesma e não sei o que dizer se fui pra você, afinal você nunca me dizia nada, mas sempre achei que me acordar com beijos de manhã significava alguma coisa. A luz do sol em contato com as lágrimas causa de enorme desconforto nos olhos, mas ainda posso ver aquilo que as pessoas viam em você quando você me olhava. Elas diziam que você me amava profundamente, mas eu nunca pude ver seus olhos brilhando pra mim. Eu tentei ver teu brilho e brilhar pra você como ninguém no mundo tentou. Contudo, precisava me libertar dessa cegueira, precisava que você me libertasse dessa cegueira e acho que você lavou as mãos. O sol é somente o sol; a brisa é somente a brisa; uma flor é somente uma flor... O que eu poderia ser senão somente eu mesma? O que poderíamos ser senão nós mesmos?

Assim como esse belo jardim tem um portão de saída, eu me despeço dos lindos sonhos que tive com você como protagonista. Minha figura não pode ser nada além de triste e não pode fazer seus olhos brilharem de alegria por mim. Desculpe-me, mas agora preciso fugir, fugir de mim.

domingo, 7 de agosto de 2011

Da alma

Não escrevo mais.
Meu corpo não aguenta mais tanta dor.


domingo, 3 de julho de 2011

Após o nascimento a vida nos brinda com duas certezas: a solidão e a morte.


domingo, 15 de maio de 2011

Cicatriz

As marcas no rosto têm um quê de eterno mais eterno que marcas de outras partes do corpo. Ele nunca gostou que o fitassem – Desconfiado ou desacostumado, não importa. Eu o desejava em cada parte do seu corpo; desejava-o em cada mão estendida que se converte em toque; desejava-o nos lábios que se transformam em deslizar vagaroso. Quando se ama alguém quer-se absorver uma gota qualquer de suor, de gozo, de intensidade. Tocar-se como que pelas mãos dele. Usar todos aqueles possessivos almejados pelos amantes: meu, tua, nosso. Absorver até mesmo a falta de palavras e tipos de palavras.

Ele gostava mesmo era daquela camisola verde, daquele cheiro de sabonete de lavanda, daquele meu olhar perdido. Fitava-o para conhecer a história daquele rosto – não a história que se conta, mas a história que se sente. Quando se ama quer-se estar sob a pele, preencher as lacunas formadas pelo tempo e guardá-las para quando estiver longe, ainda tê-las nítidas e brilhantes. Ver aquele rosto acordando inchado e sorrindo com pequenos olhos negros e bocejos em lábios bem desenhados era remontar anseios prévios e saber que o meu tornara-se possível. Minhas cicatrizes são invisíveis e criadas em um fino traço pálido nas noites.

O amor é por vezes um tipo insolúvel de problema, seja por não conseguir diluir, seja por não querer. Se há alguma coisa inerente ao querer amor, é querer profundidades até então intocadas. Não, não acredito nas narrativas de amor sem essa coleção de tragédias que é a vida. Não acredito em amores cristalinos e cristalizados. Amor é sangue que escorre sem se ver. É ferida que dói e se sente. É descontentamento descontente. É redundante. São feridas assim que consigo aliviar quanto te observo enquanto você sente-se incomodado com isso. Nós seus, nós meus, nós nossos.

Amar não é a cura. Meu corpo continua sendo templo da minha desordem com as tatuagens das tuas mãos no meu peito, com o teu homem vetrusiano me seguindo às costas sorrateiramente desnorteando meu norte. Eu sabia que era só amar você pra começar a beber e engordar, pra querer mudar até a quantidade dos meus batimentos cardíacos. Mudei até religião; virei infiel e não confesso mais meus pecados porque, mais do que nunca, acho que o inferno pode ser um bom lugar. Afinal, quando você desabotoa meu vestido, só posso concluir que, em vida, estou perdidamente salva.


domingo, 26 de dezembro de 2010

(Des)Equilibrar

Encerrei meus sonhos pueris para viver tudo que estou vivendo agora. Acertei alguns erros e me preparei para errar muito mais e deliciosamente. Nessa loucura de viver aquilo que conjecturei nunca me permitir viver, reencontrei minhas músicas e letras e redesenhei novas linhas de um sorriso já conhecido. Apaguei palavras eternas em meus dicionários, me deixei ser um filme sem final feliz e com afável desenvolvimento. Não corte a linha que me liga à tua alma, estava dito em um filme do Coppola. Mas eu digo: se a linha tiver que ser cortada, que eu tenha, ao menos por uma noite, minhas costas inteiramente acariciadas por teus beijos. Quero ainda me felicitar pelas palavras esquecidas de outrora. Quero ainda arrumar os armários e ter coragem de jogar muita coisa fora. No mapa perdido dos meus tesouros, me encontrei ávida, lúcida e desistente de minha sede pelo equilíbrio – quero bambear nas certezas ou por algumas doses de vinho. Continuo detestando meu corpo e minha alma infiel. Contudo, se após milhões de anos de evolução, me foi dado esta pele, quero aprender a usar armas brancas e me ferir menos. Percebi que me feria letalmente enquanto julgava estar com a vida sob controle. Não encerrarei a carreira e a fé, se ela existe, aparecerá em algum dos momentos torpes que viverei.

domingo, 24 de outubro de 2010

Seguir

Se dissesse adeus e saísse correndo pela porta, o que faria? Certamente nada. E você, de fato, nada fez. Você me dizia que sempre me emprestava algo porque, caso nos desentendêssemos, eu teria que voltar pra devolver a tal coisa, assim teríamos uma segunda chance. Não havia nada mais de bom, dado, emprestado ou compartilhado, entre nós. Lembrei-me disso logo que fechei a porta do elevador na portaria. O que foi isso? O que fomos nós? Deve ter existido algo, senão meus olhos estariam secos naquele momento. Pessoas fortes como eu não choram, por isso existem os óculos escuros.

As calçadas preto e brancas lembravam-me aquilo que tivemos juntos. À esquerda estava o Café, do outro lado da rua estavam a banca de jornal e a loja de doces, à direita estava a livraria. O tempo congelou e te vi ali tantas vezes e eu contigo comprando doces diferentes, bebendo café gelado e comprando livros de prateleiras diferentes. Eu te vi ali tantas vezes – o homem que admirava, que me fazia rir. Por um instante achei que te re-encontraria. O relógio voltou com seus tic tacs. Vida que segue e você que não me seguia. Eu já esperava por isso e esperava que você me esperasse, mas você não é homem de esperas. Esperar é ideal romântico feminino. Você é o mais normal dos homens e isso me fazia a mais infeliz das mulheres.

Dizem que a energia vital é cíclica. O que não compreendo é como isso poderia ser benéfico – voltar ao começo, voltar aos erros, voltar a você. Fechei a porta de casa e num esforço sobre-humano, joguei as chaves na mesa de centro e me joguei no sofá. Poderia ficar de pé, inerte até minhas pernas ficarem dormentes ou com câimbras tamanho cansaço que sentia; deitar era, na verdade, um gesto de piedade. Havia passado dois anos por nós. Fitei aquele molho de chaves largado na mesa. Gostaria de ter sabido como é morar com você, como é amar e ser amada por você, como é dividir com você. A culpa também é minha, pois fiquei esse tempo todo mostrando, em todo e qualquer gesto, o seguinte: olha como eu sou forte, olha como você não me faz falta, olha como minha vida continuará perfeita sem você. O que você não sabe e o que eu não entendo o porquê de eu ser assim, é que essa é minha forma mais doce, mais delicada de dizer eu te amo.

Tic tac, o tempo acabou e ele foi generoso, nós que não fomos generosos com o que tivemos. Você não verá fotos minhas em festas e sorrindo. Não me maquiarei mais nem colocarei roupas chamativas para ir ao trabalho semana que vem. Estarei com meus brancos, cinzas, azuis e pretos de sempre, darei bom dia, sorrirei e direi todas as frases que o trabalho demanda. No computador, uma foto nossa minimizada enquanto estou no banheiro tentando respirar. Mas eu consigo, eu sempre consegui sorrir e seguir. A única coisa que nunca consegui foi deixar você me amar.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Amar é transgredir.

Eram exatamente naquelas tardes cinzentas em que ela o via. Ele era meio desengonçado e além dela, não se sabe quem mais atentava as pupilas para o caminhar dele. O nome dele era Roam. Roam, nunca ouvira um nome tal qual, mas combinava com aquele sorriso sempre desconfiado e um olhar que parecia fugir do olhar. Ela o via às quintas-feiras e não importava o que estivesse fazendo, ela iria sentar naquele banco, no final da tarde, e esperá-lo passar. Por vezes, existia a sensação de reciprocidade de olhares e talvez fosse realmente tamanha que desviavam-se concomitantemente. Em uma dessas quintas, os dois dividiram o banco.


Tantos anos depois e eu só penso em você. Lembra daquela vez em que você pediu que eu te ensinasse a me beijar? Lembra o que eu disse? “Os lábios devem ser beijados devagar, que são como o inicio de uma jornada. Jornadas precisam ser sonhadas e, quando iniciadas, precisam ser tateadas por dedos ávidos e carinhosos, como quem desenha uma rota de fuga. Posteriormente, a entrada em outro território permite uma troca quente e saborosa.” Você me disse, sorrindo matreiro, que não havia entendido absolutamente nada, me agarrou pela cintura, ajeitou meu cabelo e me beijou longamente. Lembra? Eu nunca esqueci.


Hélio caiu na sarjeta depois que Bela foi embora. Eram tantas mentiras que passaram a viver delas – metiam que se amavam, que se desejavam, que eram felizes. Mentiam todo o tempo. Bela mentia ao dizer que tinha tirado de alguma planta a flor que trouxera no cabelo. Hélio mentia sobre um problema de ereção. Um ria das piadas incompreensíveis do outro e tinham longas oito horas de sono diárias. Hélio casara-se com Bela porque era, de fato, bela. Bela casou-se com Hélio por qualquer motivo que não resiste ao mal hálito matinal. Traíam-se para suportarem-se. C'est la vie. Mas sempre haverá alguém pra desistir ou compreender primeiro.


Dançavam exibindo corpos torneados e suados. No dia seguinte, um sábado, acordaram num motel barato, nus e ainda com a sensação de cansaço e falta de ar. Nenhum dos dois lembrava-se o que havia acontecido, mas sabiam que havia sido bom. Mentiram seus nomes e enquanto ela tomava banho, ele pegou o celular dela para gravar o número. Domingo, 10:00, ligação: Oi, sou eu, de ontem. Quero te ver. Me diz seu nome de verdade? Meu nome é Júlia. Também quero te ver de novo. Domingo, 15:00, reunião de família: Este é meu filho que não conhecia. Estou muito feliz de, finalmente, tê-lo aqui. Domingo, 15:02, terror.


Eu te amei até com meu medo. Mentiria se dissesse que não gostaria de mergulhar em você. Não posso. Tenho medo dos teus segredos, de você ir embora, tenho medo de me ferir, de me afogar e não há morte pior que a concebida na praia. Preciso que você me ame, que me grite. A fria aqui sou eu e você não tem o direito de me imitar. Hoje quando suas mãos deslizavam deliberadamente nas curvas do meu corpo voluptuoso, só consegui pensar: uma pena amanhã ter que chegar. Ter que mapear um novo comportamento com o meu tão típico blasé, passar uma maquiagem escura nos olhos e me repetir. Não preciso que haja um amanhã, só quero que o hoje dure eternamente.

domingo, 3 de outubro de 2010

oh, yes

there are worse things than
being alone
but it often takes decades
to realize this
and most often
when you do
it's too late and
there's nothing worse
than
too late.

Charles Bukowski

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Ires e vires

Pisar nesses azulejos caramelos como quem descobre rotas secretas, tem sido intrigante. Andar pelos cômodos, medir a altura da cama, varrer os tapetes, escrever à faca na mesa do escritório é como desvendar mistérios em vão. Por mais que abra as persianas, escute os sons estrondosos e me acomode no sofá de pelica sinto-me pequena. Nunca conseguirei adentrar esse lugar e deixar o rastro do meu cheiro nos lençóis – terei sempre que me anunciar e morrer de medo com o barulho da porta abrindo e que tipo de olhar você lançará sobre mim. Aliás, percebi que eu não sei de qual cor são seus olhos, já os vi de tantas cores, mas acho que acredito mais neles quando estamos no escuro.


Sr. Estranho, Mentiroso, Misterioso... Poderia dar-te tantos outros nomes em francês... A gente sempre se ilude de que é mais bonito sofrer em outro idioma, talvez seja porque esquecemos as palavras que transcendem a língua materna. Eu nunca te esqueci mesmo você discursando em outro idioma na nossa própria língua. Perguntei-me tantas vezes em que nossas mãos encontravam-se, se deveria estar ali tentando uma sincronização que me parecia, por vezes, tão desencontrada. Eu gosto de sonhar e quando você me abraça nas nossas caminhadas efêmeras, sinto ganas de fugir – fugir do meu corpo, esse mesmo corpo que clama por você.

Queria saber como pude fazer isso comigo mesma, como pude não deixar o tempo passar e guardar um baú de lembranças jamais vividas. Quando alguém que amamos morre e decidimos cremar seu corpo, o ritual de desfazer-se das cinzas mais parece, ilusoriamente, o desejo do renascer da Fênix. Queimei cada papel, cada domingo, cada música enviada e quando resolvi desafazer-me do baú, como num passe de mágica, como se eu fosse um deus, lá estava você intacto, sorrindo e conhecendo minhas fraquezas. Você sabe muito bem que não gosto de explicar as coisas nos mínimos detalhes, que não falo do meu corpo porque tenho vergonha daquilo que não aprendi a amar e que sou uma menina, uma menina medrosa.

As páginas amareladas do livro denotam que o tempo, de algum modo, passou. Se rápido ou devagar não interfere no que sinto hoje. Todavia, eu sempre soube que nunca poderia, por mais que o tempo passasse, passar ilesa por você, de você. A única atitude que tive foi podar meus desejos, deixar secar ao sol tuas promessas falsas que aprendi a amar. É, sou masoquista a ponto de assistir tuas ilusões sonoras como uma simples espectadora da minha própria vida e, por alguns segundos, sentir-me feliz em submergir no licor viscoso delas. Estou certa. Estou errada. Estou. Estamos. Essa sou eu. Eu sou. Tu és. Não seremos.

Não seremos in loco. A solidão é o remédio, a salvação. Não aprendemos a dividir, não aprendemos a nos dividir. Mas também é a pura verdade que sinto uma enorme vontade de conhecer por inteiro o menu dos teus sabores. Eu amo tanto te ouvir que o silêncio, meu abrigo, expande-se. Te escuto e não sei me organizar sintaticamente, os significantes e os significados formam signos errados e minha zona de conforto não variável é calar-me. Essa sociedade amorosa é mesmo um fiasco e eu nunca quis tomar seu tempo com besteiras. Belos rostos são encontrados todos os dias e eu, novamente, nunca quis tomar seu tempo com besteiras. I wanna a perfect body. I wanna a perfect soul. A verdade é que eu nunca quis tomar seu tempo com besteiras.

O aroma do café permeia nossos olhares desconfiados. Criamos um universo rarefeito que sequer nós conseguimos colonizar. Poderíamos ser tantas coisas – separados. Eu não seria tão fria e você não soaria tão falso. Abre essas janelas, deixa o barulho da rua entrar. Deixa eu esquecer a textura do lençol, os nomes nos copos de café e a saída pela porta de trás. Eu não quero mais te encontrar nas saídas dos labirintos. Eu não quero mais ler e não crer. Eu e você não poderíamos ser nós, apesar das minhas contradições. Não me leve à sério, me leve por aí. Me ame. Mande-me embora, mostre-me o caminho da porta pra fora, pois esse eu não consigo aprender sozinha.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Tautologia

Casa comigo que eu sou capaz de te fazer ver tudo que está bem na ponta do teu nariz. Eu pinto tudo de azul e te deixo a vontade para correr nua pela casa. Casamento é substantivo capcioso, é o contrário do que parece ser, mas casa comigo que eu viro teu sapo quantas vezes quiser.

Casa comigo que eu te deixo dormente e transformo todo o teu chão em cama macia. Se quiser, eu não peço pra você gritar, mas encosta teu corpo bem perto do meu e respire profundamente, sempre.

Se você decidir casar comigo, farei de você a mulher menos mãe do mundo. Contudo, sei que você não se importa em não ter filhos. Mas casa comigo que te semearei herdeiros todas as noites só pela profundidade do teu fitar.

Casa comigo que eu troco as amantes de endereço e peço que todas as minhas contas sejam entregues na nossa casa. Minha cor favorita é o vermelho, mas gosto quando você se veste de branco, é como se fizesse parte da sua pele. Então casa comigo porque eu também quero ser parte das tuas negras noites.

Casa comigo porque estou cansado de procurar presentes diferentes sem saber do quê você gosta. Portanto, se você casar comigo, pode falar dos comerciais e das revistas de moda e livros com finais infelizes que eu dou que eu gasto e me desgasto só para me poupar das tuas reprovações.

Que a decisão de se casar comigo não seja baseada na angústia que posso te causar em nossos dias. Só se case comigo para que possa te trazer estrogênio, chocolates, endorfina, músicas, feromônios e flores.

Casa comigo para eu arrancar tudo isso de bom que há dentro de você e me apossar da tua alma, pois quem sempre perambula de madrugada sou eu. Se você aceitar tudo isso, verá a quantidade de frieza que existe aqui dentro de mim.

Casa comigo porque você nunca acreditou nas minhas mentiras, mas, ainda assim, amou todas elas. Quero jogar na tua cara que você sempre soube quem eu sou e que se está aqui é por vontade própria.

Se quiser se casar comigo, não espere nenhuma festa. Casamento não é um evento imperdível. Daí, case-se comigo que eu nunca vou te perdoar por usar aquele fraque ridículo em um dia de calor com toda aquela gente insuportável me olhando admirada.

Casa comigo pra eu te mandar embora, para depois você olhar na minha cara com um sorriso sarcástico e me chamar de idiota. Você não precisa de mim, então casa comigo para eu precisar menos ainda.

Casa comigo para me provar que sou um burro em pedir. Mas casa comigo só para poder te sentir e te ressurgir nas tuas manhãs de cara amarrotada. Arruma tuas malas que eu quero te levar para o meu buraco. Então casa comigo e me faça tão infeliz quanto posso te fazer e quanto tenho sido.

O amor vem pelo mistério, pela paz, pelo rompimento, pela quebra dos paradigmas e pela tolice de professar os maiores clichês como se fossem preces a um deus que vive escondido por aí a espera de um sim. Então, casa comigo porque eu preciso e admito que sem você este abismo é muito mais miserável.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Cacos e Fra(s)cos

Hoje percebo que cada amor que tive levou um pouco do meu escasso léxico. As palavras não brotam como antes, ficam ali naquele dicionário inato, inerte. Talvez eu não tenha sabido amar. Alguém aí sabe amar? Dizem que o amor é como um jardim. Se assim fosse era só seguir as instruções atrás da embalagem de sementes... O amor é mortal assim como viver.

Eu sei exatamente qual é meu erro; meu erro é meu desespero e essa coisa forte que não me deixa equilibrar a balança com dois pesos, duas medidas. Eu fico nessa de querer abraçar você, de não querer te ver, de tentar falar, de saber que você vai esquecer. Então eu me rasgo de raiva, eu saio pra rua nua e descubro que a lua bonita no céu é mais doce que a vingança. No dia seguinte eu escrevo cartas com obrigados e eu-te-amos que não são recebidos no dia certo e, mais uma vez, esse amor furta-me mais um punhado das minhas palavras tortas. Adoeço e me faço de forte. Mulher é desdobrável, eu sou. Sou veementemente febril, volátil e voluptuosa, mas nego tudo isso até a morte.

As reviravoltas diárias deixam-me confusa. Domingo, agora, é dono do céu, do êxtase. Segunda-feira é mãe da espera e do engarrafamento. Diante daquela janela pela qual só se vê de dentro, encolho-me de medo e tento ler, ler-me, mas não aprendi braile e de tanto esforço posto nisso, quase adquiro LER. Minha alma, minha lama já diria o poeta. Passei uns 300 dias torcendo para que você entrasse por aquela porta sorrindo, mas isso nunca aconteceu porque eu sempre soube onde te encontrar e você não entraria naquela sala mesmo que eu quisesse, mesmo que eu pedisse. Os 300 dias se foram e hoje me restam suas orações e umas doses homeopáticas de afeto e açúcar. Os 300 dias se foram e hoje isso parece conversa de elevador: Como foi o dia? Sua mãe tá bem? Tudo bem no trabalho? Não gosto de muitas perguntas, gosto mesmo é de ser arrebatada.

No emaranhado de afetos e desafetos, eu cato nos recônditos os restos de amor e tento criar algo menos confuso com eles. Criar com cacos sempre corta, é uma hemorragia. Se a gente soubesse não criava nada com cacos – deixava o tempo passar e a ave sair, mesmo que fosse por 24 horas. Contudo, na desordem do armário, os cacos fazem morada como monstros que podem atacar a qualquer momento em que uma porta é aberta. Meu armário está aberto e os cacos espalhados por aí, assim eles perdem força. Tudo isso é identitário, é a busca por algo que doei, que distribuí deliberadamente e que me faz falta. No meio disso tudo está aquele envelope médio de papel pardo – ele guarda a parte física daqueles 300 dias. Eu te escrevi tantas cartas do meu amor desorganizado e lânguido e estou certa de que você as guarda no seu armário, junto aos cacos, dentro de uma caixa box. Até nisso você foi melhor que eu, mas não importa eu ainda tenho aquele envelope médio de papel pardo com perfume de flores. Sou nostálgica e gosto de esgueirar-me nos precipícios. Não sou medrosa e já tenho a moeda para o barqueiro.

Amor é fogo que arde sem se ver. O mesmo fogo que arde, destrói. Espero que não tenha destruído as palavras estranhas, minhas favoritas. Ele era alto e de olhos negros, ele era minha palavra estranha favorita e agora cabe em um envelope médio de papel pardo com perfume de flores enquanto eu, à espreito, aprendo a colar. Antes só que mal remendada.

domingo, 8 de agosto de 2010

Live and let Die.



- What happened? Why didn't they work out?
- What always happens. Life.

(Tom & Summer - 500 Days of Summer)


O amor é uma casa que construímos dentro de nós. Tenho certeza que a nossa é ampla, iluminada... Sinto falta do nosso lar como uma criança que vê o amiguinho inseparável indo pra longe e não pode fazer nada além de dar um longo adeus. Portanto, obrigada por me dar seu ombro e seu coração. Obrigada por me amar entre todas as minhas crises. Obrigada por sorrir, por me sorrir. Obrigada por ter dividido suas tristezas, família e livros comigo. Obrigada por ter me feito mulher e feliz, por ter me levado às estrelas e por permitir te encontrar na volta. Obrigada por compreender minhas questões familiares deveras complicadas. Obrigada por me mostrar que posso e mereço ser amada. Obrigada por alegrar meus domingos e ficar 6 horas comigo ao telefone. Obrigada por ter me despido e me deixar despir pra você.
Adeus é algo que deve ser dito vagarosamente para que, no fim, somente as lembranças boas sejam guardadas. É assim que quero saber que você se lembrará de mim e que me lembrarei de você. Amo-te mais que posso expressar em palavras e espero algum dia que a vida nos oferte com o reencontro e que nossas boas lembranças permitam, novamente, o mútuo reconhecimento.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Que a gente não alcança mais.


Coragem, às vezes, é desapego.
É parar de se esticar, em vão, para trazer a linha de volta.
É permitir que voe sem que nos leve junto.
É aceitar que a esperança há muito se desprendeu do sonho.
É aceitar doer inteiro até florir de novo.
É abençoar o amor, aquele lá, que a gente não alcança mais.

Ana Jácomo

quinta-feira, 29 de julho de 2010

(In)Direction

A map in the hands of a pilot is a testimony of a man's faith in other men; it is a symbol of confidence and trust.

It is not like a printed page that bears mere words, ambiguous and artful, and whose most believing reader--even whose author perhaps--must allow in his mind a recess for doubt.

A map says to you, "Read me carefully, follow me closely, doubt me not."

It says, 'I am the earth in the palm of your hand. Without me, you are alone and lost.'

And indeed you are.

Were all the maps in this world destroyed and vanished under the direction of some malevolent hand, each man would be blind again, each city be made a stranger to the next, each landmark become a meaningless signpost pointing to nothing.

Yet, looking at it, feeling it, running a finger along its lines, it is a cold thing, a map, humourless and dull, born of calipers and a draughtsman's board.

That coastline here, that ragged scrawl of scarlet ink shows neither sand nor sea nor rock; it speaks or no mariner, blundering full sail in wakeless seas, to bequeath, on sheepskin or a slab of wood, a priceless scribble to posterity.

This brown blot that marks a mountain has, for the casual eye, no other significance, though twenty men, or ten, or only one, may have squandered life to climb it.

Here is a valley, there a swamp, and there a desert; and here is a river that some curious and courageous soul, like a pencil in the hand of God, first traced with bleeding feet.

Here is your map. Unfold it, follow it, then throw it away, if you will. It is only paper. It is only paper and ink, but if you think a little, if you pause a moment, you will see that these two things have seldom joined to make a document so modest and yet so full with histories of hope or sagas of conquest.

No map I have flown by has ever been lost or thrown away; I have a trunk containing continents...

Beryl Markham
(West with the night)

domingo, 18 de julho de 2010

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Pseudar


Eu que não amo mais você, me peguei perdida entre as desculpas do ser e não ser.

Estou todo o dia inventado irrelevâncias que produzam qualquer motivo bobo para te ligar. Tiro e retiro telefones, ligo e desligo fatos, confusões, conclusões.

Eu que não amo mais você, resolvi, sem porquê, dar faxina no quarto.

Estou horas a fio olhando essas paredes e porta-retratos, minha cama e seus sapatos. Espero, reespero, desespero por minhas mãos não mais conseguirem te tocar.

Eu que não amo mais você, fiz um pacto de força e sangue comigo mesma.

Estou, contudo, remoendo as lágrimas como alguém que recicla a própria sobrevivência. Percebi que meu equilíbrio freudiano ocupa somente minhas teses e não mais meu corpo já falido.

Eu que não amo mais você, escrevo cartas e poemas sem métrica.

Estou a recitar-te como alguém que lê um livro sagrado em busca de salvação. Escrevo, escrevo-te e entendo que todas essas linhas deixaram de ser minhas a algum tempo.

Eu que não amo mais você, sinto teu cheiro no travesseiro e bebo a água que deixou no copo.

Estou arrancando as cascas em cima das feridas para, assim, encontrar meu erro. Os arranhões desta queda significam também a doce leveza perdida de outrora.

Eu que não amo mais você, titubeio em não mais te mirar, em ser forte, em andar sem par.

Eu que não amo mais você, decidi te libertar e me banhar na água do mar.

Eu, eu que não amo mais você...

domingo, 25 de abril de 2010

Entre o querer e o estar, o ser.

Este deveria ser nosso dia... Um dia só nosso e especial. Eu não sei o que anda acontecendo: O sol tem estado tão quente e a vida tão fria. É, não deveria ser assim, não poderia ser assim. Como pôde, como podemos? Como podemos nos tornar uma tarde chuvosa de verão que inunda e estraga tudo? Prefiro o outono de belas folhas, dias de calor e brisa ao entardecer, assim seríamos tudo – tudo que precisamos para estar. Não soubemos ser eu e você, não soubemos ser nós. O vento que antecede a tempestade traz poeira e não limpeza. As lágrimas que escorrem necessitam esforço, geram suor . A proporção do suor é grande demais para que as lágrimas consigam lavar a sujeira que ele gerou. Há um tempo na vida em que julgamos que o amor é tudo; não o amor não é tudo. O amor é um rio cujas águas precisamos aprender a navegar. Eu amo você, mas desconfio de nós.
Tornei-me mais ríspida ainda e cobro mais que nunca. Ando muito cansada, não consigo me entregar, não escrevo e ouço músicas de despedida. Sei que tenho que caminhar com minhas próprias pernas e essa paraplegia que se instaurou não encontra cura. Existe alguma forma de ser eu e não te machucar? As paredes do quarto têm vida própria e se encolhem. Eu me aperto claustrofobicamente pra caber neste cubículo e não atrapalhar teu espaço, mas eu me expando. Expando-me em lágrimas que te sufocam. Eu não sei ser outra e não sei se você ainda me quer assim. Sinto falta do teu corpo me dando vida. Sinto falta da vida quando estávamos juntos, quando éramos nós. Então eu durmo – o sono é meu instinto de proteção. Nunca quero acordar pois nos sonhos eu tenho asas coloridas e todos apontam para mim dizendo: Olha que pássaro lindo!
Engordei nesses anos e você vive dizendo que deveria me cuidar mais, que sou linda. As palavras entram e saem da minha cabeça sem rumo. Você não poderia me escrever um poema? Está prestes a fazer um ano que coloquei esta aliança no dedo e hoje, não sei porquê, tiro-a pois cismei que ficará preta a qualquer momento. Olho para a aliança e sei que o ouro é algo que se pode derreter. Derreto-me febril em um banho frio e não sei onde você está; quando acordei já não estava mais na cama. Casa comigo de verdade e não me deixa ir embora.
Essa vida é esquisita mesmo. Sinto-me no País das Maravilhas e toda vez que olho para o lado o coelho repete que está tarde. É, está tarde... Muito tarde. Fiquei aqui envolta nas palavras que saltitavam em minha cabeça e submersa em sentimentos. Aqui sou rainha de todos os meus reinos. Daí você chega, me dá um beijo na testa, sorri e diz “boa noite”. Eu não respondo, não consigo (naquele momento as palavras só existem no reino da fantasia), mas ensaio um sorriso e isso te deixa satisfeito. Observo-te indo embora e sussurro que te amo e isso é mais do que posso fazer.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

11 de Janeiro.

Não choro pelas palavras. Choro de saudade (...).
Quando alguém morre ou desaparece, a palavra escrita é o único alento.
¹

As palavras tendem a tornar-se escassas. Desta vez não consegui dizer muita coisa, chorar muita coisa, pensar muita coisa, só gritei: Calma! A vida é longa pra uns poucos e curta para nós. Será que os anos contam mesmo a vida? Será que esse relógio ingrato de apenas 24 horas diáris quantifica nossa existência?
Sei que não mais te verei e sei que a única coisa que me lembro é a maneira como eu olhava pra cima e via teu sorriso ao longe. Todo mundo deixa alguém todo o tempo. Uns guardam as lembranças de uma vida quando era possível acariciar teus cabelos negros. Outrs guardam uns poucos anos e se obrigam a se comportar como adultos para dizer adeus e os piopres são aqueles que nem puderam te sentir como deveriam e se agarram no primeiro semelhante teu que lhes aparece.
Ao final não resta muito a não ser não pensar muito e pedir desculpas por não ser, não estar e por não ter arrancado de ti as palavras que nunca quis pronunciar. Ao final a dor é para quem fica, pois, ao final, ainda restou teu sorriso no travesseiro.

¹ Milton Hatoum in Órfãos do Eldorado.

domingo, 13 de dezembro de 2009

Miroir



Quando vi os olhos castanho-esverdiados de Georgia cheios de lágrimas, só pude arraigar uma certeza: aquilo era amor, amor líquido, e medo, medo sólido.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Sacroprofano

Amanhecia. Eu virava-me na cama a procura do teu corpo que, na verdade, nunca esteve ali. Para mim, tua ausência era impossível de existir, pois sentia teu perfume povoar as janelas do quarto e teus olhos incendiavam toda aquela seda. Estava quente, ou melhor, era quente e não haveria condicionador de ar algum que pudesse abrandar tal temperatura. Parece que o Criador nos oferece dias quentes para nunca esquecermos como é estar nos braços de quem se ama. Eu te amava; amava-te em cada gota de suor que teimava em escapar dos lenços que usava para me secar. Gotas estas atrevidas e que prefiro não detalhar por onde passavam, pois sei que o ciúme é coisa vã e cega. O calor banhava-me o corpo inescrupulosamente e eu sabia que não havia escapatória. O suor violava o sagrado do teu cheiro e mostrava-me mais enfaticamente a cada segundo que eu precisava da tua chuva. Suor que me deixava feliz era o teu, o meu, o nosso escorrendo despudoradamente. Era essa mistura de cores e sabores que tantas noites nos transformou, em secreto, em nós e somente nós sabíamos disto. Há joias raras, cujos donos fabricam uma que lhe seja similar e a exibem por aí, assim também é o amor: por mais que seja mostrado para a gente, nunca é o real, o supra sumo do sentimento. Existe um pacto secreto entre os amantes e somente entre eles o amor mostra-se tal qual é, tal qual se sente, pois aos outros pode-se ver banalizado por qualquer coisa, mas entre os amantes o amor é o sêmen de duas vidas em constante gravidez de modo a tornarem-se uma. Precisava de uma banho; não sei porquê, mas os banhos sempre me aliviavam de tuas ausências e já que ausência é uma palavra que nunca deve ser usada no singular, tomava vários banhos por dia. Assim como Afrodite surgiu da espuma do mar, eram tuas mãos que surgiam das águas e curvavam-se na minha cintura e escorriam pelos meus quadris e mantinham teu cheiro inviolável sob minha pele. Então eu te batizava, em nosso nome, meu – meu esposo, meu calor, meu suor, meu amor. Eu sabia que não importava quando e onde, o nosso pacto estaria lá, naquele quarto e quando retornava ao nosso pecado original, você, sentado na cama, abria-me os braços e sorria. E em todas as vezes, em todo este tempo, que você me arrancava de mim mesma que sempre tive a sagrada certeza: se o pecado leva à condenação eterna, são tuas as minhas pequenas mortes e a eternidade para voltar a nascer.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Sinônimos




Esses que pensam que existem sinônimos, desconfio que não sabem distinguir as diferentes nuanças de uma cor.


Mario Quintana (Caderno H)

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Vinte e 1.

Passei os três melhores meses da minha vida caminhando nua por esses corredores repletos de flores imaginárias com aromas bem reais que viviam por nos inebriar. Era engraçado como você conseguia ludibriar minha timidez com coisas que não poderiam ser esquecidas, nem escondidas e no fundo e no raso, eu não era nada resistente a sua sedução. É nessas horas em que falo de amor que me pergunto: é possível amar e não ser piegas? Não sei. Sei somente que era impossível eu não te amar feito uma menina, feito uma mulher. E era doce, até eu me tornei doce para você.

Sorriamos, gargalhávamos e trazíamos a vida para cada vez mais próxima de nós. Dois seres intensos não poderiam ter tanta paz, mas cada vez que discutíamos você me puxava pelo braço, cabisbaixa, e me beijava. Nós construíamos nossa paz mesmo através de todas as nossas guerras. Isso não significava que era fácil; não era tão difícil, mas era tão belo ver teus olhos pequenos e amendoados me olhando chorosos, então eu te abraçava. Tais abraços tornavam-se cada vez mais intensos e longos como se quisessem carimbar cada parte do meu corpo no teu. Daí chegava o vento que, por vontade própria, encarregou-se de secar nosso suor para que pudéssemos permanecer naquela inércia amorosa e braçal. Não há maneira de esquecer nossos segundos mesmo que eles, algum dia, permaneçam em algum lugar do passado: é pelo passado que somos quem somos, que estamos onde estamos e que nos amamos como nos amamos.

Houve dias que tive vontade de ser livre novamente, de ir e vir novamente. Estive enganada este tempo, pois você era minha liberdade. Não te ter à noite é que era minha prisão. Eu era um Ícaro muito diferente porque minhas asas eram reais, porque era você quem me fazia voar. E não importa se três, quatro meses ou quarenta anos, o que importa era poder te ver abrir os olhos todos os dias e estar certa de que todas as lágrimas que chorei algum dia se transformaram em um rio cujas águas me levaram até você. Chorava de emoção pelo tempo passar e nos mantermos juntos; chorava como quem joga a oferenda ao mar em agradecimento pela benção.

Amar-te desta forma foi a maior surpresa da minha vida e não era surpresa nenhuma que meus sonhos e minha realidade eram teus. Portanto os passos eram dados e então a vida coloria-se...

domingo, 9 de agosto de 2009

H(isteria)1 N(eurótica)1.

Sempre tive a impressão que os desabafos são pleonásticos e esse texto também o é, a começar pelo título. Este é um texto sem parágrafos, sem divisões, assim como o presente. Isso é um desabafo. Sim, eu disse que isso é um desabafo em alto e bom tom. Que ruflem os tambores, que toquem as cornetas, pois isso é um desabafo. Eu queria conhecer as mais belas palavras do Houaiss. Queria o mesmo deus inspirador de Chico, a depressão de Clarice, o vício do Noll, a voz afinada da Jones... Ah, eu queria tanta coisa. Estou ficando cada vez pior, fato. Enlouqueço e emudeço a cada crepúsculo. Sem porquês, sequer esperanças, só os tons alaranjados que clamam pelo descer da Lua. Desde a escola aprendi que a Lua é o satélite natural da Terra. Na verdade, ela é o satélite que inspira seres pálidos e noturnos. Esta mesma palidez traz os silêncios desprovidos de sol que tão profundos como só a noite sabe se portar. Tenho saudades de sentir solidão e medo de admitir isso. Quero fugir da minha casa porque tenho medo do monstro que vive em meu armário; não quero libertá-lo, tenho medo de ser feliz. Sssh, quero falar muito, muito baixo. Não quero que ninguém escute minha vida, nem tampouco eu quero berrá-la por aí. As sinonímias são sempre imperfeitas e as onomatopéias para o silêncio também. Os nós são feitos com fitas de seda e reforçados por minha fraqueza, tornando-se, assim, difíceis de desatar. Não faça isso, não faça aquilo; diga isso a ela, seja verdadeiro por mais que doa. Sempre quis duas coisas na vida: ser livre e que me escutassem. Paradoxo. As palavras prendem e libertam ao mesmo tempo. Posso falar, me sentir livre e te prender ou posso falar, me prender e te libertar. Não, definitivamente eu não quero uma casa no campo com flores e silêncio da aus~encia de barulho. Quero o silêncio do amor e respeito. Quero flores nas praças e pontos de ônibus dos centros das metrópoles. Estou a anos luz de ser a mulher biônica, eu só quero teu amor cru e nu. Amarro mais um laço em mais uma fita de seda. Não quero magoar ninguém, só exercitar o ser-me... Quero que sejas pra mim também. Acredita quando eu digo que é difícil ser eu? Acredita quando eu digo que é difícil ser eu uma vez que não quero te magoar? Acredita quando eu digo que é difícil ser eu uma vez que não quero te magoar porque você me faz sorrir? Acredita quando eu digo que é difícil ser eu uma vez que não quero te magoar porque você me faz sorrir e eu quero te ver sempre sorrindo? Isso tudo cansa, mas eu me acostumo. Comprei vitamina C e estou tentando fortalecer meu sistema imunológico mental. Até parei de ver telejornais, estou tentando abstrair a permanência do Sarney no Senado e observo de longe como todos parecem açougueiros mascarados por culpa da influenza A. Eita vida besta, meu Deus! Nada melhor que esta frase do Rosa para explicar. Explicar o quê? Darwin explicou algo, Newton mais algum algo. Penso, logo existo? "Penso", ok. "Existo", tenho dúvidas. Resisto até quando doer. Resisto até quando der.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Dialética











É claro que a vida é boa
E a alegria, a única indizível emoção
É claro que te acho linda
Em ti bendigo o amor das coisas simples
É claro que te amo
E tenho tudo para ser feliz
Mas acontece que eu sou triste...

Vinicius de Moraes

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Curriculum Vitae

Os dias os quais eu não te encontro são enlouquecedores. Procuro tuas músicas e vídeos. Ouço-os, vejo-as e enlouqueço mais. Faço tudo isso na tentativa de não pensar em você. Não quero sequer cogitar a possibilidade de você haver se esquecido de mim. Eu preciso do teu gosto na minha língua. Preciso das tuas palavras desconexas. Preciso me lembrar que não sei agir quando estou contigo. Preciso tremer se te escuto, se te olho, se te devoro. Eu gosto mesmo é do teu peso sobre meus ombros, sob meu corpo, sobre meu tapete; isso sim me traz felicidade.

Restou um maço incompleto do teu cigarro aqui na mesa de cabeceira. Sempre odiei os fumantes, achava nojento, mas não você. Tua fumaça tinha cheiro de canela, tinha um cheiro muito pessoal. Gosto do jeito que faz com a boca quando dá tuas baforadas. Teus lábios formam um circulo carnudo, carmim, cádmio. Nunca fui muito boa em exatas, por isso sempre fui extremamente apaixonada pelas humanas. Foi você quem me ensinou toda a Biologia das coisas e me fez enxergar a anatomia das artes.

Eu te recitava os versículos de Cantares de Salomão em umas noites quentes e brancas. Enquanto recitava, você beijava a boca da garrafa de uísque. Keep drinking. Gosto de te observar, pois sei que tomarei parte daquela satisfação muito me breve. Teu olhar era um invasor que rasgava minhas vestimentas a milhares de metros. E o que falar quando dividíamos os papéis, a ciência? Nestas noites brancas e quentes tentávamos desmentir a tão famosa lei da Física: Dois corpos não poderiam ocupar o mesmo lugar no espaço. Mentira. Quem disse isso nunca amou na vida, nunca se jogou em um precipício de sedas caleidoscópicas. O romance é a melhor droga do mundo e eu era viciada na tua seiva.

Enxergava todos os matizes em tua auréola de fumaça e acreditava em todas as desventuras que teu ar alcoólico narrava. Teu som é a reencarnação das composições de Beethoven. Ainda bem que ele era surdo e não ouviria nossos barulhos. Você é um Dom Quixote e eu a Dulcinéia que se jogou na frente de teu cavalo magro e sujo. E esta é nossa História, nossa aventura e desventura. A verdade é que eu preciso de você agora, de qualquer modo, sem qualquer razão que não seja você mesmo. Preciso me sentir desconcertada por teu olhar repreendedor que me fez crescer em gênero, numero e grau. Amo tuas esquisitices como nunca amei ninguém.

Antes de a nossa desventura começar, isso tudo estava cheio de ninguéns que se foram, mas você conseguiu ser alguém. Mentiria se dissesse que sou incompleta sem você. Eu preciso de você aqui porque eu gosto. Eu te quero aqui porque o ar fica muito mais leve quando coberto pelas nuvens da tua nicotina. Eu te amo porque são teus dedos que tocam todas as minhas sinfonias de ouvido. Eu enlouqueço sem nossas noites hibernais, infernais. Ainda tem uísque aqui no bar e cigarros e um isqueiro novo. Eu comprei Volver. Então volta para tempestuarmos juntos. Tua loucura universal me consome e me revive. Eu quero morrer todos os dias só para você me levar de volta ao teu paraíso.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Querer

Talvez eu queira que você entre em minha vida bem devagarzinho. Acho que quero ouvir teus passos ao longe, mas sempre presentes. Acho que quero um querer diferente, um querer só teu. Talvez eu queira mesmo é que você me faça rir, sorrir. Que as nossas horas passem depressa nos finais de semana para me sentir feliz na segunda-feira. Quero que a saudade te construa com linhas precisas e imperfeitas. Eu quero é não esperar, nem me desesperar. Quero aprender tua simplicidade. É, eu quero mesmo que você entre devagar na minha vida...

terça-feira, 2 de junho de 2009

Resposta





Quero escrever-te como quem aprende. Fotografo cada instante, aprofundo as palavras como se pintasse, mais do que um objeto, a sua sombra. Não quero perguntar por quê, pode-se perguntar sempre por que e sempre continuar sem resposta: será que consigo me entregar ao expectante silêncio que se segue a uma pergunta sem resposta? Embora adivinhe que em algum lugar ou em algum tempo existe a grande resposta para mim.

Clarice Lispector in “Agua Viva”

domingo, 31 de maio de 2009

Hibernar
















- Eu gosto de dias frios e cinzentos de inverno.
- Dias assim lhe permitem saborear um mau humor.
Calvin

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Classes gramaticais

A vida é feita de substantivos. Palavras que tentam expressar, denominar sentimentos inexprimíveis, inomináveis. Palavras que tentam calar vozes que jazem mudas, que transpondem desejos. Ainda assim lá estão eles, os substantivos, como guardiões. verdade é que não há definição possível e exata para sentimentos intrínsecos como amor, dor, alegria, solidão... Qualquer um que tente utilizar, torna tudo prolixo e indubitavelmente vago, vazio.
Os adjetivos são uma tentativa desesperada de explicação, entendimento. Os seres preciam se fazer entender, mas também somos análogos, ambíguos. Entretanto, tal necessidade de explicar o inexplicável nos é latente.
Pergunto-me agora sobre os verbos. Em meio a tantos transitivos e intransitivos, só um se sobrepõe, só um se faz necessário, só um é sublime... Aquele que é o mais intransitivo de todos: Amar.


Aproveitando a semana de Páscoa e reorganizando desorganizadamente umas gavetas, encontrei, ou melhor, reencontrei uma parte de mim. Portanto, decidi iniciar uma série (?) de, digamos, ressureições ou seria isto um revival? Não sei. Bem, este está datado de 10 de Julho de 2007. Quase dois anos... Dois anos bem intensos desde então. É, como a gente muda. Que bom não ser a mesma.

domingo, 5 de abril de 2009

Anotações para Maio

Você me invade. E eu te rasgo. Distorcemos os paradigmas e não ligo se você vai embora logo. Sei que estará dentro de mim em algum momento, por alguns momentos. Espero que não cause feridas. Vou sangrar, eu sei. Sei também que só verei o sangue tempos depois na brancura das horas. Eu não me importo em jorrar. Eu me importo em não sentir. O nada me importa.

Suas promessas falsas me dão alívio, me fazem respirar. Uma mentira disfarçada de verdade é algo tão belo se dita por você. Você faz isso com primazia: Escolhe vocábulos, sintagmas, almas e ouvidos. Desta vez, por um acaso de quem está no lugar errado e na hora certa, você me escolheu. Na verdade, você se acomodou anatomicamente em mim, pois eu te apontei havia muito. Tua voz é melódica e tenho vontade de perguntar qualquer coisa sobre teu passado, que não me interessa, somente por te ouvir mentir mais alguns segundos. E todos os outros que continuem calados.

Eu construo tua imagem descabida parte a parte. À parte de mim está tua espera. Você diz e desdiz sua volta. O carnaval está próximo e eu quero dormir e sentir teu perfume, somente. Sem confetes, só o colorido de nossos corpos e íris. Meu querer-te é imensurável, mas você bem sabe que eu sei que você não vai ficar. Contudo, os quilômetros deixaram para trás, em mim, os amores e suas representações musico-cinematográficas. As semanas transcendem com suas mentiras mazeladas que amo tanto e, abrupto e aos poucos, você se vai.

Mal-me-quer. Te quis. Te disse. Te dei minha verdade. Confesso que sou uma tola, mas você esculpiu com tamanha primazia este querer que me conformo em te dar adeus. Você sempre foi errante. Você libertou meu espírito errôneo. Talvez um dia eu e você nos enxergaremos. Talvez, algum dia, nós...

sábado, 14 de março de 2009

Xeque-mate

É sábado e as pessoas estão festejando. A verdade é que nem ao menos sei porquê estou aqui. Acho que voltei a um estágio inicial de observância. Todas as vozes parecem ruídos e corro o mais rápido que posso para não perder as mais conhecidas. Não que tenha ficado surda, isso não. Os sons estão ininteligíveis e eu tenho pavor de enxergar e não entender. Cadê você que me faz tanta falta? Cadê todo aquele eu?

O dia transcorre transtornado e eu aqui pensando em você e movendo a torre, a rainha e o cavalo. Xeque-mate. A torre desabou por causa da minha mão. O líquido do meu copo transfigurou a rainha. Juro que estava indo bem no jogo. Tenho esta maldita mania de jurar e geralmente minto. Mas juro que estava indo bem no jogo. A rainha está diferente agora; está inexplicavelmente cheia da plebe e sua presença é artefato dormente. O cavalo move-se para todos os lados. De lá pra cá, de cá pra lá... Não pára. Arrasta-se. Não paro. Continua. Tento. O caminho não existe, ele se faz ao caminhar.

Quero fazer uma viagem, não importa aonde, pode ser aqui ou na China, não importa onde. Mover. O cavalo pode mover-se de todos os lados, para todos os lados, praticamente uma esquizofrenia delimitada por quadrados brancos e negros. Contudo, amava mesmo a torre. Amava meu sótão só com a janela aberta. Via estrelas cadentes e sonhava morrer quando uma caísse em mim, esta seria a morte mais bonita do mundo. Nunca joguei tranças, meu cabelo é curto demais. Deixava a porta de vitral colorido encostada. Era só invadir ou sorrir ou abraçar.

O líquido do meu copo esvaiu-se, inundando a torre. A rainha transfigurada observa silenciosamente ao longe. O sol se põe delicadamente e avermelhado. A noite altiva e prateada acaricia os cabelos desgrenhados da então aliviada rainha. Aliviada porque a noite iguala os seres. À noite todos são igualmente sós, mesmo que em sonhos.

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Chumbo trocado não dói


E no fim dos tempos os amantes trocariam confidências. Nem sempre aquilo que é dito na face do momento é real, mas as letras transbordam, ecoam. Para se falar de amor é necessário muito mais que amar. É necessário não envergonhar. Nós somos sujos e as palavras purificam...

Quarta-feira, 10 de Abril de 2008

Ela é do tipo de mulher que te inspira a mais divinal confiança. Com o passar dos dias e de como é seduzida, ela se entrega. Dona de um ímpeto diabólico, ela te propõe as loucuras mais masoquistas. Ela sempre te surpreende, não importa a maneira: por uma nova garrafa de vinho, um sutiã novo ou o mesmo vinho e o mesmo sutiã sobre o corpo. Ela dá uma sede viril, imperdoável. Engana-se quem acha que ela não se apaixona. Ela ama e muito, mas é um amor tão intenso e efêmero que te desconcerta por inteiro. Ela é uma ladra e faz com que um homem se envolva por vontade própria em suas tramas maquiavélicas. Ela nunca aceita nada; diamantes ou chocolates. Ela é carnívora. Oferece e devora banquetes. Ela é do tipo de mulher que te olha na cara, come teus olhos e faz você confessar as coisas mais inconfessáveis. Coisas estas que fariam qualquer um se afastar de você, mas ela não é qualquer uma. Ela tem um olhar-sorriso de canto que faz com que você sempre volte sempre que ela quiser. Contudo, ela sempre vai. Ela vai, mas fica. Fica porque nunca vai embora por completo. Fica porque deixa uma cicatriz, uma tatuagem... Ela deixa qualquer coisa de eterno. Meu quarto está cheio do perfume dela e quando lá adentro, sinto ainda aquele gozo melancólico, fatal. Ela ressuscita todos os dias. Nada de romances eternos; ela ressuscita todos os dias ao toque das minhas mãos em meus quadris. Depois, afogado em suor e sangue, volto para o quarto. Ela roubou minha cama, minhas cenas de banheiro e desconcertou meu paradoxo. Mas ela sempre vai.

Sempre vai.

Fica porque eu te amo. Fica por eu ser um louco em te amar. Fica porque há resíduos da tua pele embaixo das minhas unhas. Fica porque, por mais que você vá, nós não estaremos longe. Fica porque o sexo é meu, mas o gozo é teu. Fica para nos unirmos de todas as formas possíveis. Fica porque eu te amo.

Fica.

PS: Desculpe ter falado de você em terceira pessoa, mas esta foi a melhor forma que consegui: Ser indiretamente direto como alguém que contempla O Nascimento de Vênus e se hipnotiza.


Domingo, 14 de Abril de 2008
Você me seduziu com aquela tatuagem de Marte no teu braço esquerdo. Só então descobri que você é canhoto. Odeio números ímpares e coisas esquerdas. Gauche, este é você. Sou destra, mas longe dos direitos e longe de ser direita. Você me atropela, me entorta, me vira pelo avesso como um guerreiro patriota dizimando a nação alheia. Te odeio pelo espelho. Te odeio por esta minha miopia. Te odeio pelas vezes que, bêbada, alcanço a tua cama e não te encontro. Depois volto mais bêbada e nos encontramos na porta da tua casa. Você, sóbrio, querendo me matar; eu, bêbada, querendo me jogar. É isso que somos: êxtase e vômito. Esta nossa carnificina sadomasoquista é o que me dá vida. Amo as palavras sujas de teus livros e tudo que elas fazem comigo. Que venham teus zumbidos e barulhos. Amo os poemas de Álvares e tua voz à luz de velas. Você é honestamente desonesto e só eu sei como o relógio reluta em não sucumbir certas noites minhas. Tua frieza é furtiva, minha insanidade cristalina. Não somos óleo e água. Somos Dr. Jekyll e Mr. Hyde. Completos destroçados, metades em negros escombros.

Sim, sempre vou embora. Vou embora para não te dizer não. Vou embora para te ver sempre sóbrio, pois a bêbada sou eu, paulatina e agressivamente. Somos solitários in loco. Teus deuses me renegam e eu me rendo a eles. Sim, sempre vou embora.

Queria fugir-me... Fugir-te.

Comprei um novo quebra-cabeça. Sei bem que você é muito habilidoso com eles, eu não. Há ainda muitos espaços vazios. Fico. Fico para completá-lo. Fico para completar-me.

Fico porque te amo.

PS: Eu odeio domingos com ou sem você. Mas, ainda assim, preciso te ler em todos os pronomes pessoais de plural e singular.

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Grito


Me dá raiva pensar nisso tudo. Me dá tristeza pensar que você optou pela distância. Me pesa saber o quanto poderia ter te amado. Te entreguei meu corpo e guardei minha virgindade, não a de sexo, mas de todos os sentimentos que só conheci contigo. Não digo só sexo porque isto é algo que se resolve facilmente entre mãos e imaginação. Contudo, a magnitude do amor não pode ser criada à mão como estátuas de barro, nem mensurada pela imaginação do mais brilhante poeta.

Para sempre é a mais cruel das expressões; mantêm a alma encarcerada. Para sempre é uma das promessas que fazemos somente por um prazer masoquista; só não consigo ver uma verdade nisto. A que ponto chegamos? A ponto algum. A porta continua aberta. Os amanheceres sempre vêm suprimindo sua ausência momentaneamente. Mas eu vivo, as pessoas é que acham que não. Cada um vive a seu modo, certo? Eu vivo do meu. De silêncios em silêncios preencho minhas lacunas. Te vejo pelo vidro embaçado da janela e depois saio de casa. Você sabe muito bem que a chave extra fica embaixo do tapete.

Você fez com que eu conhecesse o arrependimento; o arrependimento da confissão, da confissão do amor. Hoje eu preferiria ter me resguardado de teus beijos, dos teus telefonemas. Preferiria ter me resguardado de você. Tenho o dom de afastar as pessoas de mim. Não seria diferente contigo. Definitivamente não sou um ser digno de afeto. E não digo isso fazendo um dramalhão; é realmente o que penso. Que as almas nobres possam me perdoar. Que você me perdoe.

Me perdoa por ser tão exigente, tão intrasigente, tão instável? Me perdoa por brigar quando você não me chamava pelo nome? Mas é que ele fica tão mais gracioso quando é você que o pronuncia. Preciso ouvir sua voz e o meu nome é a única coisa que ainda possuo. Não posso exigir tanto assim de você quando quem tem que ser doar sou eu. Mas fico feliz com seus movimentos e desejos que me dão insônia. Vem, volta ou me traz de volta. Estou com saudade da nossa paz.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

O espinho

“I was going to kill my heroine.¹

Quando Rosa olhou para o lado não o encontrou. Doía não tê-lo por perto e ela precisava encontrar imediatamente uma forma de neutralizar toda aquela dor. Já sei, pensou ela, vou à costureira, pois tenho uma festa muito importante no sábado e quero ficar muito elegante. E assim ficou decidido.

A costureira de Rosa morava em Copacabana, mas ela precisava escolher os tecidos em uma loja lá na Avenida Rio Branco. Rosa detestava aglomerações cansativas, mas era por uma boa causa, convencia-se ela. Arrumou-se, colocou um salto agulha e batom vermelho. Sim, queria chamar a atenção dos outros. E Rosa era mulher bonita, sabe. Tinha um corpo bem torneado e dourado. Pois é, vamos nos ater aos aspectos físicos uma vez que falar dos interiores é assunto Freudiano.

Rosa também era uma mulher viajada. Claro que ela sempre se encantou muito mais com as arquiteturas gêmeas dos shopping centers que com o Louvre, por exemplo. Mas isto não vem ao caso porque se existe algo que não foge a regra e a nenhum ser humano é a dor. E era isso que Rosa sentia: dor. Dor esta, abafada pelo barulho e pelos tons fortes de seus sapatos e batom.

Então, perfumou-se, fez um coque no cabelo, entrou no carro e saiu. No caminho o único pensamento que Rosa tinha era sobre o inferno que seria encontrar um lugar longe dos flanelinhas para estacionar o carro. O destino parecia a estar ajudando, encontrou um lugar rapidamente e partiu para sua odisséia da cor e textura perfeitas. E encontrou. A felicidade era tanta que qualquer um poderia confundi-la com uma criança e seu doce. Talvez fugir desse aquela sensação de felicidade instantânea, um certo alívio. A cor do tecido? Indescritível.

Entrou no carro e ligou o rádio. Só a rádio não colaborou com ela, pois tocou todas as músicas cujas letras não queria lembrar e não podia mais dançar.

O que será ser sua sem você
Como será ser nua em noite de luar
Ser aluada, louca
Até você voltar
Pra quê

O que será ser só
Quando outro dia amanhecer
Será recomeçar
Será ser livre sem querer
Quem vai secar meu pranto
Eu gosto tanto de você²


Todavia, rádios são problemas fáceis de ser resolvidos. Cala a boca, ela disse apertando o botão power. Para a sorte de Rosa, Copacabana estava próximo e com isso a alegria pela confecção do vestido seria logo alcançada. Mal sabia Rosa que as pétalas das rosas são as primeiras a cair.


¹Virginia Woolf, personagem de Nicole Kidman no filme “The Hours”
²Abandono (Composição: Chico Buarque e Edu Lobo)


Espérer

Queria escrever, mas as palavras me fugiram. Não consigo esboçar um ínfimo de sentimento que seja, pois estes parecem trasbordar o limite das laudas. A gente passa por tanta coisa nesta vida que, em certa época, ter esperança parece ser contraditório. Não, não é... Apesar dos pesares, apesar de todos os gritos mudos e lágrimas secas.
Nunca acreditei em mágica e muito menos que as coisas por ela se realizassem. Contudo, se há uma palavra realmente encantada, está é recomeçar. Não que acredite em coisas nulas e que viveremos sem embasamento de situações anteriores. Caso fosse assim recomeçar perderia o encanto. Recomeçar é a capacidade de ir além de nós mesmos, de nossas amarguras. Todos experimentam o desespero, o nada, as máscaras. E daí que somos falhos? Dizemos não tantas vezes. Estar vivo é fácil, basta nascer. Viver é um mistério. Um mistério tão negro que nem sequer temos o direito a uma lição antes da prova.
Não consigo falar muito bem sobre pessoas. Sobre mim mesma também digo quase nada. Sou ambígua, prolixa e sei muito pouco. Por isso me bastaria o fim, mas não o quero. Não quero o conforto de quem vive se lembrando que tentou. Não, não... Quero que dê certo. Parece ser algo doloroso, um prazer estranho. Não posso concordar, muito menos discordar. Eu preciso que as coisas dêem certo. Estranho inconformismo. Então pra quê tentar se já começaremos nos remetendo a um não?
Não sei se procuro por dores, também não sei se gosto delas. Todavia, estou certa que gosto dos sabores e dos sorrisos e de poder fazer uma ligação durante a madrugada. Não quero esperas, apesar de saber que são necessárias. Quero esperanças com seus sabores agridoces. Esperar, talvez; esperançar, reconstruir sempre.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Bonne Année






Havia a um canto da sala um álbum de fotografias intoleráveis,

alto de muitos metros e velho de infinitos minutos,
em que todos se debruçavam
na alegria de zombar dos mortos de sobrecasaca. (1)


Começaram as enxurradas de clichês. Que coisa maldita! Os blá blá blás me irritam profundamente nesta época, pois parecem atípicos demais. Uma vez ouvi que os clichês, às vezes, nos livram de situações cujo controle nos foge às mãos. E, mais uma vez me pergunto: Quando temos o controle? O falatório continua. Contudo, este final de ano nem ao menos as gavetas consegui arrumar. Maquiar defuntos não é tarefa agradável e já que estão mortos mesmo, preferi deixá-los como realmente são e estão. Claro que todo ponto de vista é a vista de um ponto, mas e daí se sou míope? Provavelmente, só num mundo de cegos as coisas serão o que verdadeiramente são. (2)

Por falar em miopia, me lembrei do Bernardo. Ele era uma figura. Um ser compreensivo e, por vezes, meigo até demais. Mas o que isso importava se eu gostava dele mesmo assim? Experimentei várias coisas com Bernardo, desde álcool até ciúmes comedidos. Nos falávamos todos os dias ou, pelo menos, quatro vezes na semana. Cheguei a nutrir certo amor platônico por ele que foi assassinado por uma distância fatídica. No final nem paixonite, nem amizade. O elo se quebrou e a última coisa que soube dele é que foi morar em Brasília depois de romper relações com os pais e as irmãs. Achei muito estranho. Mas a política socialista de Cuba também era e eu não morri por isso.

O pior para mim é ainda amar você. Sim, você. Não cito nomes porque não quero ficar ouvindo seus ecos; eu não mereço ficar ouvindo sua voz. Algum tempo atrás você disse que nós seríamos para sempre. Eu sempre achei que para sempre e nunca abrangiam tempo demais. Mas que seja infinito enquanto dure. (3) Portanto pedi que fossemos mais devagar. Você citou um de seus autores favoritos dizendo que o amor era para ser vivido até a última gota. Golpe baixo. Acreditei. A esperança é pressuposto do amor e vice-versa. Você é fraco porque deixou eu te amar. Eu te amei. Eu sou mais fraca por ter te amado. Eu ainda te amo. Ele era triste e alto. Jamais falava comigo que não desse a entender que seu maior defeito consistia na sua tendência para destruição. (4) Mas, e daí? Continue passeando por aí usando seu Ray Ban com todo aquele ar de quem não se importa em importar-se. Continue levando esta merda toda, empurrando tudo isso com a barriga. Só não me olhe amorosamente e atenda as minhas ligações e pare de implicar com meu vício por chocolate.

Por falar em gula, ontem ganhei de presente uma caixa de bombons. Estes com recheio de mouse de maracujá. Delicioso, porém esquisito. O que seria a mistura de chocolate com maracujá? Ecstasy e Gadernal? Comentei isso com uma amiga muito querida, a Fabiana. Ela me ligou ontem, após algum tempo sem contato. Matei um pouco das saudades da risada alta dela. Fabiana sempre teve o dom de me alegrar e não haveria de ser diferente agora. Conversamos sobre tudo, como sempre. Foi sensacional senti-la feliz. Está casada e teve um casal de gêmeos univitelinos e isto era algo que Fabiana jurava não fazer nunca: casar, ter filhos e uma casa branca e barulhenta. Pouco importa, na verdade. A única coisa que sempre quis era ver toda aquela tristeza que ela tinha no olhar se dissipar. Consegui sobreviver para admirar tudo isso e torcer para que, um dia, sentisse o mesmo. Eu e ela sempre conversamos sobre tudo; sexo, drogas e rock’n’roll. As divagações eram tamanhas e não poderia ser diferente no que tange meu comentário sobre o chocolate e o recheio. No final chegamos a um denominador comum: chocolate dá o maior tesão. Nos despedimos. Mas as despedidas entre Fabiana e eu nunca eram tristes.

Meu quarto estava uma bagunça e eu estava com uma preguiça antagônica a vida. Odeio Física e as três leis de Newton, mas o que odeio mesmo é a inércia. Puta que pariu! Estava muito calor e todos estavam felizes. Como alguém consegue sobreviver a este inferno? Saí do meu corpo e me empurrei; levantei. Inferno astral. Comecei a organizar as coisas de forma superficial. Não sei se algum dia conseguirei transpor esta barreira, mas o importante é, ao menos, parecer organizado. Todos têm orgulho de mim, preciso me manter neste patamar. A razão da pseudo organização era André. Ele nunca me trazia chocolates, André é o chocolate em si. Ele falava pouco, mas era conciso. Curto e grossamente nem me perguntava, também não me dava tempo de uma auto-indagação, fazia e ponto. Nunca reclamei, até gostava. Gostava muito mais por André ser o tipo de cara com quem eu poderia passar quatro horas conversando ou quatro horas de quatro, sem cobranças. Nos dávamos bem de qualquer forma e em diferentes posicionamentos sem necessariamente concordarmos. Puro behaviorismo. Tanto os estímulos quanto as respostas eram excepcionais. Nos veremos novamente em breve, se não estiver realmente apaixonada por alguém.

Tenho uma amiga que sempre fala de amores comigo. Coitada, amou demais, recebeu de menos. E que ninguém venha com aquele papo de que o amor é desinteressado até mesmo do próprio amor. Ninguém ama sem ser correspondido opcionalmente; até que me provem o contrário. Apesar disto Diana cultivou em si uma doçura admirável. Costumava viajar bastante, independentemente de sair de casa ou não. Quando saía, sempre me trazia um anjo de porcelana; todos graciosíssimos. Não tinha coragem de deixá-los ao vento e na poeira. Portanto, guardava todos eles em uma caixa: Lindos e delicados como ela. Diana é uma das pessoas que me trazem esperança e cheiro de violetas. É uma das poucas pessoas quem tem valido a pena. Digo isto porque nos últimos tempos muito poucas pessoas tem valido a pena e minhas noites de sono. E mais uma vez me vem um pseudo autorzinho qualquer dessas porcarias de auto-ajuda e diz: O importante é quem você é e não o que as pessoas dizem. Ou, o importante é o que está em seu interior. Portanto, nunca deixe ninguém te pôr pra baixo. Ok, ok... Isto pode até ser verdade, mas não sei até que ponto as pessoas podem ser tão avulsas e tão desimportantes assim na vida de alguém. O que fazemos com a máxima de que somos seres sociais e sociáveis? É possível estar aquém quando se convive com pessoas diariamente? Bem, se algum ser conseguiu tal conquista, peço que entre em contato comigo pelo Orkut.

E por falar em contato, faz tempo que não vejo Verônica. Nós costumávamos ser muito próximas e gosto dela, de verdade. Nosso afastamento foi deveras estranho; nem saberia discorrer a respeito. Todavia, seria muito desleal de minha parte se dissesse que não estava um pouco enjoada dela. Odeio gente que vive em função de uma coisa só. Verônica vivia em função do namorado. Lamentável situação porque ela é muito inteligente, não neste aspecto. Não sei se era algum espírito famigerado, mas algo a dominava e ela não fazia nada alem de trepar, é claro, e pensar no bofe nas horas livres. Se o cara lesse o manual de como tocar uma punheta, ela lia também, somente por ele. Por ela mesma muito pouco... Quase nada. As leituras de Chomsky e Schopenhauer ficaram de lado. Nossa amizade chegou a um ponto quase Kama Sutra. Verônica me contava o que fazia e eu ouvia calada e até com certo nojo. Ora, isso não me interessava. Para mim me bastavam as minhas experiências ou, se quisesse ver sexo com terceiros, alugaria um filme pornô. Nada contra voyeurismo, mas isso e amizade não combinam para mim. Nos afastamos por motivos não muito claros, mas sexo e amizade não competem entre si. Ela vive me dizendo que não a procuro mais. Eu cago e estudo ao mesmo tempo e o meu telefone também não toca. Ah, quer saber... Vai se foder, concomitante e denotativamente. Espero que seja bem satisfatório porque eu estou satisfeitíssima.

Satisfação garantida. É isto que Rafael gera em mim. Ele é um daqueles homens lindos com três namoradas e que usa todo o charme para pegar muita gente aleatoriamente. Nos conhecemos a três meses atrás. No começo fiquei bem interessada nele. Bastaram algumas horas para eu ter certeza absoluta de que ele é um babaca completo. Praticamente um boneco inflável, daqueles que vem com acessórios e tudo. Me divirto. Testo meu poder de sedução, viro as costas e vou embora. Rafael sempre volta com uma esperança adolescente e eu me divirto. Contudo, ele nem desconfia. Avisei que ele era um idiota.

Às vezes me pergunto se não sou uma filha da puta ou será que é justamente este o problema: Deveria ser uma. O ar está pesado ultimamente e não estou falando de efeito estufa, aquecimento global. Me perdoem os ativistas do Greenpeace. Juro que desligo as luzes e torneiras quando não estou usando e só uso duas folhas de papel para secar as mãos. A questão é que hoje não estou com saco para falar de coisas nobres. Sou egoísta. Sou mesmo. Quem não é? Acho que as pessoas seriam mais felizes se assumissem isso. Todos dizem que não são e matam por ciúmes. Nunca vi ninguém rejeitar um milhão de Euros porque há crianças passando fome na África. A Jolie por mais legal e solidária que seja tem três mansões, um rancho, alguns carros na garagem, casou com o Brad Pitt (Sorte a dela!) e não com um angolano pobre. Adoro a África e a Jolie, que fique bem claro. Não quero dizer que ela está errada, muito pelo contrário. O grande problema é que as pessoas não assumem suas escolhas. Jolie é rica e decidiu ajudar, portanto dá a cara à tapa. É uma escolha. Somos todos hipócritas, a questão é como isso se intensifica. Se alguém escolheu ser piranha. Ótimo. Decisão própria. Só não banque a mais virgem e casta de uma estirpe. Este povo não entende que a pena é o pior dos sentimentos e que não sentir nada é pior ainda. Meus brônquios se abriram neste momento.

Estou no ônibus. Então, ouço uma dupla inusitada: Caetano Veloso e Roberto Carlos. Indago que porra é essa. Não sei o que é pior, se banda de “rock” Emo com dor de cotovelo ou esta dupla. Cacete, tenho que parar de xingar, mas é difícil. Palavrões são processos catárticos em tempos caóticos. Será que Focault explica? Fones de ouvido. Autismo em ação. Mais uma etapa parece terminada, a não ser pelo beijo que espero desde meus quinze anos. Todavia, consigo conviver sem isso, sem ele... Consigo mesmo. Não que sinta ódio. Todos temos um passado. Não me arrependo de nada que fiz. Experimentei quase tudo, inclusive a paixão e seu desespero. E agora só quereria ter o que eu tivesse sido e não fui. (5) Hoje de manhã, antes de sair, reli o e-mail da Verônica, tentei ligar para o Bernardo e escrevi o nome completo dele no livro que estou lendo (“Histórias de Amor”, Rubem Fonseca). Tudo no mundo começou com um sim.(6) Eu digo sim a cada segundo, a cada toque e mantenho todos os telefones na agenda do meu celular. Quem sabe algum dia. Quem sabe algum dia construa coisas novas com as velhas pessoas. Por agora preciso me reconstruir. A chuva cai pela janela e a música alta me deixa cada vez mais surda.

Um verme principiou a roer as sobrecasacas indiferentes
e roeu as páginas, as dedicatórias e mesmo a poeira dos retratos.
Só não roeu o imortal soluço de vida que rebentava
que rebentava daquelas páginas. (7)

Luz. Depois da freada brusca do ônibus, a cidade ficou mais bonita e iluminada. As lágrimas secaram. Estou leve. Posso voar. Sentirei falta, mas quem sabe um dia?! Sem cronologismos... Qualquer dia basta.



1, 7- Os Mortos de Sobrecasaca. Carlos Drummond de Andrade In Sentimento do Mundo
2- José Saramago In Ensaio Sobre a Cegueira.
3-
Vinicius de Moraes In Soneto de Fidelidade.
4- História Interrompida. Clarice Lispector In A Bela e a Fera.
5, 6- Clarice Lispector In A Hora da estrela.